Colunistas/ Para pensar junto/ Rosa Paula Paiva

UMA RUPTURA EM NÓS

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Recebemos um convite para olhar para dentro de uma forma que nunca vimos. É um convite coletivo, que nos retirou as desculpas mais comuns, como a falta de tempo. Que nos envolveu de uma forma assustadora, pelo choque do estancamento da engrenagem a que estávamos tão acostumados a fazer parte. Mas também é um convite de certa forma gentil, pois a mensagem repetida à exaustão foi para ficar em casa. Uma intimação para estar nesse lugar santuário que nos pertence e abriga. Uma convocação para adentrar nossa casa metafórica, em que moram nossos medos, nossos desejos, nossas angústias, nossas identidades. Qual foi a última vez que olhamos para eles com profundidade?

Um retrato meu para me apresentar por aqui num clique feito por Melissa Maurer

Estar em casa é estar em contato com o íntimo, é olhar para a vida e os relacionamentos que construímos, para as escolhas que fizemos, para o que levamos a sério, o que é significativo e o que perdeu sentido ao longo da nossa história mas que ainda carregamos. Deveríamos nos perguntar por que esta intimidade nos incomoda tanto. Talvez ela revele de forma mais cristalina quem somos além dos papéis desempenhados. Quem eu sou sem trabalho, sem trânsito, sem as obrigações habituais, sem as roupas, sem as identidades que fui me atribuindo ao longo do tempo é quem eu gostaria de ser?

A crise, como se sabe, abre oportunidade para a mudança. Para olhar para debaixo de todas essas camadas que foram sendo adicionadas, muitas vezes sem que se percebesse. Olhar o que está ali e perceber quais dessas camadas devem permanecer, quais delas nos aproximam da nossa essência. E também observar como nos pesam as coisas que não nos pertecem, como responsabilidades que nos atribuímos, mas não são nossas, sonhos expirados, verdades que já não fazem sentido. Não é apenas um mero exercício de autoconhecimento. É uma questão de sobrevivência: o peso das coisas que carregamos podem tornar difícil chegar ao outro lado dessa situação. O que é possível abandonar agora?

Nesse processo contínuo de nos questionarmos, de revisar os significados e as escolhas, ganhamos território dentro da gente, abrimos possibilidade para o novo. Mas é preciso estar atento a esse espaço que sobra quando abrimos mão de uma parte do que acreditávamos. É muito fácil preenchê-lo com mais do mesmo. As mesmas premissas, os caminhos habituais, as ideias estabelecidas, trabalho, roupas, listas de afazeres, apenas revestidos com uma nova roupagem. A mudança genuína não é resultado dos acontecimentos em si, mas de como processamos conscientemente a ruptura que se encontra diante de nós. Diante desse convite coletivo para olhar para dentro, um manto de invisibilidade foi retirado, mas a resposta é individual.

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