Colunistas/ Para pensar junto/ Veronika Rosse

QUANDO VAMOS NORMALIZAR O SENTIR?

por
Foto: Alvin Balemesa | Unsplash

Ser sensível demais para mim sempre foi um tabu. Aos olhos de uma sociedade que idolatra pessoas fortes, sentia que para as pessoas ao meu redor minha sensibilidade era sinônimo de fragilidade.

Quando uma criança chora, mesmo com toda sua inocência e ingenuidade, o primeiro pensamento é que “só pode ser birra”. Quem nunca pensou isso ao ver um pequenino se esgoelar que atire a primeira pedra.

Na maioria das escolas, pelo menos no Ocidente, ainda não ensinam como podemos lidar melhor com o que sentimos, com as relações e como falar com o outro. Na infância, se um amiguinho falou algo que não gostamos e reagimos brigando, logo um adulto colocava panos quentes para abrandar o conflito ainda pedindo que o colega chateado pedisse desculpas. Assim, nos foi negado o direito de falar o porquê de não termos gostado do que ouvimos e muito menos de entender os motivos de termos sentido o que sentimos e lidado daquela maneira.

“A felicidade não se resume na ausência de problemas, mas sim na sua capacidade de lidar com eles”. – Albert Einstein.

Crescemos acreditando que podemos chorar, mas não demais. Podemos falar, mas não muito alto. Podemos ser felizes, mas não muito. Podemos comemorar nossas conquistas, mas sem exagerar. Podemos reclamar, mas sem fazer mimimi. Podemos falar sobre nossas dores, mas sem se vitimizar. É permitido sentir emoções, mas sempre com limites, até o ponto que acreditamos que na verdade não podemos, porque o mundo é o lugar de quem sente menos e “que chegou lá”: os fortes, corajosos, destemidos, resilientes…

Por isso, quando adultos, achamos que o melhor que podemos fazer é passar longe de um livro de autoajuda, porque não precisamos disso. Temos vergonha de sentir, ou melhor, assumir que talvez sintamos coisas que não são tão boas assim e que precisamos de ajuda. Afinal, naquela cena da infância, quando bloquearam o que estávamos sentindo, a ajuda não veio, não é mesmo?

Nesse lugar raso em que a vida foi nos colocando, muitas vezes enaltecemos assuntos banais e banalizamos assuntos importantes. Achamos lindo quando um especialista fala na TV, mas negamos a necessidade de fazer terapia. Deve ser por tudo isso que, nos últimos cinco anos, a busca por conteúdos relacionados a autocuidado triplicou na Internet, especialmente na primeira quinzena de março, segundo uma pesquisa do Google Trends publicada pela plataforma Hysteria (acabei de ler isso!). É óbvio que precisamos falar de autocuidado e autoestima!

Precisamos criar mais espaços para discutirmos as questões do ser, principalmente, para compreender o rumo que estamos tomando em sociedade. Um espaço arejado, sem a vergonha ou o receio de parecer discussão de sentimentalismo barato.

Precisamos dar mais vozes para quem tem coragem de falar sobre autoestima, bem-estar, espiritualidade, direitos humanos e amor próprio quando ainda são temas vistos como não tão importantes. Principalmente, porque se as nossas dores individuais e sociais são tão profundas e estamos tão agoniados, desesperados e tristes, no meio do caos, só queremos voltar à estaca zero: não sentir mais. Não nos acolhemos, não nos entendemos, não nos preocupamos em sentir e quando sentimos já é tarde. Tarde para entender a confusão de onde viemos, o que fizemos ou para onde vamos. Tarde para achar o que perdemos no caminho ou o que ainda precisamos encontrar.

“Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”. – Albert Einstein

Quem sabe os grandes segredos da humanidade, as grandes respostas e descobertas de gênios não vieram de um lugar que sempre imaginamos, um cérebro superinteligente, mas de uma inteligência emocional que foi muito bem explorada através do sentir. Quem sabe, o resgate desse poder nos levará a construir novos caminhos, mais plenos, e novos tempos que já estão por vir?

“Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho em profundo silêncio – e eis que a verdade se me revela”. – Albert Einstein.

Inscreva-se na nossa newsletter!

VIDA DIÁRIA: UMA OCASIÃO ESPECIAL

Você pode também gostar de

Sem comentários

Deixe uma resposta