Colunistas/ Nathalia Leter/ Sobre o feminino

QUANDO UMA MULHER MEXE EM SEUS CABELOS

por
Ahmed Carter no Unsplash

Quando uma mulher ajeita ou revira seus cabelos, ela se faz mulher assim. Ativa sua mulheridade. Se os pinta, se os corta, se os raspa, se os acomoda em lenços, em grampos, presilhas, pentes, palitos, tatuagens… se os deixa crescer, se os deixa esbranquiçar, se os diferencia radicalmente dos cabelos hegemônicos… é sobre como ela se ativa, se convoca a si mesma, se reinaugura, se reposiciona, se reagrega, se devolve para si mesma, reconstitui suas reservas de si… é sobre como ela se pertence, na intimidade de seu corpo inesgotável e indizível, para além ou aquém de seus fazeres; é como se recolhe para a fonte de suas forças, das imagens que nutrem seus fazeres e efetuam a vida.

Se se tornam mães, se não se tornam mães, se se casam, se não se casam, se amam outras mulheres, se amam homens, se se depilam ou deixam crescer os pelos, se vivem isoladas ou em comunidades, se cantam, se faxinam, se escrevem, tecem, modelam, pintam, plantam, costuram, compõem, nutrem, alimentam, cuidam de si ou de outrem, se desejam, se não desejam… é como se refletem, como se instauram, como se dialogam consigo mesmas, com outras, com as plantas, com os ventos, com a Universa.

Vai encontrando uma declinação própria da cabeça ao expressar algo que ainda não tem forma definida, algo que está ainda sendo gestado. Começar por outras palavras ou no meio de uma respiração. Absorvida e imersa nos afazeres, sem tempo para sentir-se mulher. Esboçando um novo contorno nas bochechas, uma nova linha no olhar que passaria despercebida pelo espelho ao se levantar distraidamente da pia após lavar o rosto pela manhã e cuspir a pasta de dente.

É depois de completadas as funções, ao sacar dos cabelos o lenço que os guardava, ao soltar o nó que os prendia e massageá-los, reavivá-los, acolhe-los de volta ao adorno da face e do colo; ao demorar-se um tanto mais nesses gestos, como se ao sacudir e afofar os fios estivesse convocando-se e a si mesma comparecendo um pouco mais… Instaurando-se, enquanto pousa num canto da cozinha, um copo de café na mão, pensamentos vazios, corpo jogado contra a parede, apoiado numa das pernas, nenhum projeto, nenhum futuro, fumando um cigarro não metafórico.

Uma pausa e um suspiro. Capturar um pequeno instante que seja só seu, sacudir o café e gira-lo na boca num último trago antes de voltar para o mundo, para fora. Cuidar, sentir, falar, calar, não saber, saber. Segredos que seu silêncio mergulha no puxar das comissuras da boca. Sentir-se mulher e aceitar. E ser alguém para si mesma.

Quando uma mulher mexe em seus cabelos, quando guarda coisas diversas em sua bolsa, acumula fragmentos de cartas perdidas entre as contas de luz e gás nas suas gavetas… e lá estando sempre um pedaço de si, coisas menores e tão úteis quanto inúteis como uma agulha, uma linha, um elástico… para amarrar o saco de pão, para prender ervas, para prender os cabelos, para nada, para existir. Uma mulher, quando mexe em seus cabelos, ativa um mundo e faz proliferarem estéticas cósmicas posto que cotidianas. Ela existe.

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