Colunistas/ Juliana Schalch

O DIA QUE A TERRA PAROU
E EU PAREI PRA PENSAR

por

Será que Raul Seixas teve o sonho que ele relata na música “O dia que a terra parou”? Imagina sonhar com esse dia? Raul era agnóstico, seus estudos de magia e ocultismo influenciaram muitas composições. Será que podemos afirmar que ele teve uma premonição? Muitas tradições acreditam que os sonhos têm esse poder.

Culturas indígenas brasileiras acreditam que os espíritos da floresta conversam com os xamãs através dos sonhos e revelam a eles curas e visões que devem ser interpretadas e acolhidas pela aldeia para a evolução de todos. Práticas terapêuticas utilizam os sonhos como forma de acessar camadas mais ocultas da psiquê humana. Para Freud, os sonhos são a porta de entrada para o inconsciente.

Medito sobre o assunto porque não há outra forma de viver o agora, lembrei desta foto do Sérgio Savastano feita no Parque Ibirapura (que saudade de passear por lá!)

No ensaio “O teatro e a peste”, Antonin Artaud conta sobre o sonho que faz com que uma cidade inteira escapasse da peste em 1720. O vice-rei da Sardenha, Saint-Remys, sonhou um dia que estava todo pestilento e viu a peste arrasar seu pequeno Estado. Acorda aterrorizado. E quando o navio Grand-Saint-Antoine pede licença para atracar em seu porto, ele faz com que o navio vire de bordo e se afaste da cidade sob pena de ser afundado a tiros de canhão!! A ordem deixa a todos perplexos, mas o navio segue então para Marselha e lá espalha a peste matando milhares de pessoas.

Há coisas que não conseguimos explicar, mas parece que o nosso planeta tem um sistema regulador próprio. De tempos em tempos, ele surpreende com movimentos durante os quais só nos resta observar, aceitar e transformar. Grandes catástrofes, desencarnes coletivos, terremotos, enchentes… Há muita inteligência nisso tudo. Muita dor também.

De repente, o mundo parou. Mas o que isso quer nos dizer? A Terra está fazendo análise. A humanidade foi colocada no consultório. Enquanto isso, a natureza se regenera, os animais usufruem novamente de sua liberdade e todos respiram melhor.

Tal como uma borboleta, fomos colocados no casulo. É uma imensa oportunidade. Um rito de passagem. Nas culturas dos povos nativos, esses ritos costumam impor aos iniciandos isolamento e tarefas árduas que exigem resiliência e fé. O corpo, a mente e o espírito são testados até o limiar entre a saúde e a doença, a confiança e o desconsolo, a sanidade e a loucura. Qualquer semelhança com o momomento que estamos vivendo não é mera coincidência.

Como não enlouquecer com isso tudo? Exercitando a entrega. É assim que honramos o que estamos vivendo e aprofundamos a relação com o nosso ser e o mundo. A morte é o maior mistério com o qual temos que lidar. Apesar de ser nosso destino certo, de todos, humanos, animais, plantas, ainda assim o inexplicável que a envolve nos amedronta e nos fascina. Mexe nas nossas entranhas. E nos fortalece. A morte é transformação. De um estado para outro, de uma forma para outra.

No tarô, a carta de número 13 é a morte. Ela simboliza não uma morte física, necessariamente, mas o final de um ciclo. Uma transformação por vir. O tarô é a representação do caminho iniciático do humano nesta encarnação. Sempre vamos nos deparar com este momento de fim de ciclo, que é, consequentemente, o início de um novo. Algo melhor está por vir. E sempre para melhor porque de cada movimento tiramos algumas lições que vão modificar nossas estruturas e a forma como vemos o mundo.

A carta seguinte, de número 14, é a temperance, que significa o momento de decantar a experiência, de paciência, silêncio e recolhimento. Significa o tempo necessário para harmonizar as águas interiores, para aprender a lição imposta pela vida, para que a transformação seja efetiva, profunda e curadora.

E é isso que está acontecendo agora. Neste momento. Chegamos ao fim da linha. Esse modelo desenfreado de exploração das riquezas naturais, o acúmulo de grandes riquezas nas mãos de uns em detrimento de outros, a emissão de tantos poluentes na atmosfera…. como pode funcionar asssim a extração extenuante de sangue das entranhas da terra sem nehuma consequência? Estamos produzindo desequilíbrio.

Compreender espiritualmente este momento me parece fundamental. Ao fazer uma análise do todo sob uma perspectiva maior parece que a coisa fica mais leve. Porque a gente entende esse movimento como uma autorregulação do próprio planeta exausto e da raça humana que andava perdida demais.

Muitas expressões de solidariedade estão se manifestando, muitas barreiras econômicas estão sendo desfeitas, países se ajudam independente de disputas políticas. Estamos nos mobilizando, mais do que nunca, mesmo dentro de casa, nos engajando em projetos sociais e valorizando ainda mais o trabalho de ONGs e de instituições que não precisam de uma pandemia para saber que a vida urge.

Pessoalmente temos que lidar com nossas próprias questões e sombras, que são tão difíceis quanto. O medo por nossos familiares e por nós mesmos, a reclusão na quarentena, que nos trás pra perto de questões de convivência que eram atenuadas com a correria do dia-a-dia. Para alguns o isolamento é solitário, para outros é com muitas pessoas juntas convivendo 24 horas por dia. A limpeza da casa, a decisão de quem faz as compras, quem lava louças, as crianças, o home office…

Aulas de yoga gratuitas, de astrologia, cursos, leituras, meditações guiadas, terapia online e o principal: você escolhe o que quer fazer ou não. Livre arbítrio. E mais, independente do que você faça, algo vai mudar em você. Tenha certeza disso. E esteja atento.

Agora, a grande questão é admitir que não seremos os mesmos, nem o mundo será o mesmo. Teremos que ter uma fina escuta do que mudou e se permitir tomar decisões diferentes, que serão mais condizentes com quem vamos nos tornar. As nossas relações pessoais vão mudar. E as relações políticas terão que mudar também. Tomara.

Então, vamos cuidar do agora, de nós mesmos e dos nossos. E confiar.

Fiquem bem, fiquem em casa.

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3 Comentários

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    Giuliano Olguin
    abril 28, 2020 at 6:47 am

    Texto interessante que mostra como não temos a cultura de nos prepararmos para transformações. Sempre somos guisados pelo medo da mudança e nos agarramos com todas as forças no nosso passado pessoal e velhos costumes. O texto me lembrou de outro do NYTimes que trata de como o Obama tentou propiciar uma nova cultura de transformação nos Estados Unidos criando setores para vislumbrar o que está no horizonte e se preparar para ciclos que estão cada vez mais frequentes. Porém, o Trump cancelou tudo….o mencionado texto está em https://www.google.com/amp/s/www.nytimes.com/2020/02/29/opinion/sunday/corona-virus-usa.amp.html

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    Roberta Thorlay
    maio 3, 2020 at 8:02 pm

    Amei o texto. Ele retrata de forma calma e pausada o caos, que normalmente é agitado, rápido e pelo próprio nome ele é caótico. É um respiro entender as pausas que existem em meio à vida, as pausas que insistimos em não fazer e ela veio com tudo na nossa cabeça. Obrigada pela leitura, com certeza foi importante para mim!

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      Lila Guimarães
      maio 7, 2020 at 11:42 am

      Obrigada pelo comentário! Lindo e complementar!

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