Beleza Crua/ Bem-estar

NOVOS RUMOS DO MOVIMENTO E DAS CONEXÕES

por
Regina Miranda em cena

Adoro a dança desde pequena e o movimento foi se mostrando ao longo da vida uma oportunidade de tocar em lugares emocionais escondidos pela rigidez do dia a dia. Não sou uma autoridade no assunto, por isso, chamei a bailarina, diretora artística e coreógrafa Regina Miranda* (com quem já trabalhei num projeto de TV) para uma conversa livre em tempos de rever o próprio termo “liberdade”. Sigo acreditando no poder da dança e dos encontros, mesmo à distância. Obrigada Regina por mais uma vez cruzar a minha vida com a sua luz. Aqui vai o nosso papo que aconteceu pelo WhatsApp:

Lila: A dança me parece ter funções infinitas. Penso que é uma ferramenta ritualística de conexão com o Todo, com nossa expressividade, bem-estar e autoconhecimento. O que você pensa sobre isso?

Regina: Essa pergunta daria um livro inteiro, mas a dança demanda a presença corporal. Qualquer dança acontece quando a pessoa está em contato com as suas sensações, quando a sua energia está expandida para além dela. Não precisa ser uma dança de palco, mas uma dança para si, dentro de casa. Tem uma hora que a gente conecta com a gente mesma. Esse é um momento em que a dança acontece. Além disso, ela pode ganhar uma teatralidade, então, ela engloba projeção e o outro dentro da própria dança. Ou ela pode ser reflexiva e talvez tenha contato com outras instâncias. Uns podem chamar de Divino, outros, de instâncias próprias. Não importa o nome, mas, quando você sente, sabe e percebe que é muito bom. Não é à toa que a dança sempre fez parte de rituais desde a Antiguidade, que está nos nossos rituais contemporâneos de passagem como os casamentos e festas de fim de ano. Todas essas são ocasiões muito coreografadas e que vão nos ensinando a lidar com elas e com as suas mudanças.

Lila: De que forma a dança pode nos ajudar a enfrentar as sensações de medo e angústia nos dias de hoje?

Regina: Medo e angústia sempre estiveram presentes. Houve tempo que os fenômenos naturais, os relâmpagos por exemplo, eram coisas muito mais amedrontantes, porque não havia conhecimento, mas não há conhecimento que baste para lidar com os nossos terrores internos e as nossas ansiedades. Mesmo quando a gente tem consciência sobre eles, esses sentimentos não passam como num passe de mágica, porque outras camadas do ser humano aparecem e temos um lugar de complexidade onde o medo é também uma força propulsora de novas descobertas. Uma outra coisa é o medo paralisante, não estou falando dele. Desde o século XX, onde a incerteza predomina, a ansiedade passou a ser nossa companheira. Como a gente trabalha isso? De várias maneiras, mas acho que o melhor é encarar, olhar, sentir e ficar em contato, ao invés de tentar ficar bem ou ocultar ou evitar ou usar uma artifício para se livrar desses sentimentos. Sempre gostei da ideia de dialogar com a ansiedade e o medo. É uma coisa meio freudiana. Freud dizia que “é preciso colocar o pé na fobia”, da mesma maneira que você só aprende a dançar colocando o pé na dança e só aprende a viver vivendo. A dança ajuda você a tornar poético (não digo só lindo, pode ser uma poesia muito pesada), a transformar, a vivenciar o medo e as emoções em geral de uma maneira incorporada. Com isso, a gente tem a experiência de sentir, de se emocionar, se conhecer e talvez sair daquele túnel sabendo que haverá um outro. A gente não fica sem medo e sem ansiedade, mas a dança nos ajuda a viver as alegrias, os medos, os amores. E eu digo as danças do cotidiano, não falo só das danças teatrais.

Lila: Nesta quarentena, que você chama de “espaço solidário”, você deu uma série de aulas live no seu Facebook e passou alguns exercícios para o corpo se manter mais presente e flexível. Qual a importância especialmente hoje de se manter em movimento e de experimentar o espaço com o corpo, um espaço que é limitado?

Regina: Gosto de chamar o que estamos vivendo de “espaço solidário” e de “distanciamento físico”. É necessário porque nenhum dos países tem estrutura para aguentar a força, a velocidade e a brutalidade de um vírus desconhecido. Se tudo isso fosse um filme de ficção científica, o vírus seria como alienígenas invisíveis que assaltaram o mundo e nós não sabemos como vencê-los, porque não temos as armas certas para lidar com eles. Ficamos em casa nos protegendo, protegendo o sistema e os outros. Não se sabe direito como esse alienígena se comporta. Tem muita coisa que precisa ser organizada e compreendida. Estamos em casa para dar tempo até mesmo para a comunidade científica. O “espaço solidário” não me traz problema, mas o “distanciamento físico” acho bastante difícil, porque eu trabalho com uma arte que se dá no corpo. Por mais que a gente possa, como eu fiz, dar aulas ou ver espetáculos e pessoas criando as suas próprias danças em casa, não é táctil, não tem o calor, não tem o olho no olho. E a gente também está descobrindo essa tecnologia e como vamos fazer para que possamos manter algo que acontece em todo o reino animal. Os filhotes ficam por perto das mães, animais ficam juntos para se proteger e nós precisamos do olhar, do afeto do outro para nos fortalecer também. Entender a tecnologia para isso é um novo desafio, ela não era usada desta maneira. Estamos descobrindo como ela pode nos trazer mais próximos, aprendendo até a se comportar diante da câmera. Até o próprio espaço virtual é novidade, os gestos amplos se excedem, mas a gente vai fazendo o que pode. Quem pode, fica em casa, e quem não pode deve se proteger o máximo para não ficar doente de burrice ou de resistência à mudança comportamental. Ir para a trincheira de peito aberto é bonito no filme, mas na vida, para quem quer viver, eu acho que não é o caso.

Lila: As conexões corporais e energéticas que o Sistema Laban considera são ótimas ideias para pensarmos no nosso bem-estar. Pode me falar mais sobre isso?

Regina Miranda: O Sistema Laban pensa no corpo como um corpo total, ou seja, qualquer coisa que afeta uma parte afeta o todo. Como você vê o seu corpo? Quais são os desejos para o seu corpo? Eles estão adequados a você? Quem é você? Qual é o seu corpo total? Que conexões você pode estabelecer dentro dele? Pelo Sistema Laban você pensa no corpo como se fosse um mapa de trânsito e que algumas áreas do mapa podem estar congestionadas. No Sistema, existem práticas que desentopem as vias e criam conexões mais eficientes, portanto, movimentamos o corpo com menos gasto de energia inútil e maior uso e restabelecimento da sua energia vital. Essas conexões são trabalhadas em corpo/ espaço, um aporte ao Sistema que diz que quando você está conectado você está com luz. É interessante se perguntar como você conecta a sua tomada corporal ou como você se ilumina? Quando você se ilumina, a sua própria iluminação te nutre e gera mais luz e gera luz no outro, que também ganha a possibilidade de se iluminar. Você cria campos energéticos positivos e saudáveis. Isso não é nada esotérico. Que o espaço se modifica com o nosso movimento e vice e versa é algo que se sabe há mais de um século. Sei que é difícil, depois que vivemos muitos séculos de uma geometria onde o espaço não se modificava, mas o espaço é plástico e se modifica de acordo com as suas energias e movimentações. Mesmo quando desejamos estar perto, talvez, nosso corpo não esteja apto a se conectar. Então, através do Sistema Laban a gente gera um circuito dentro do próprio corpo e um sistema de conexão com o entorno. Com isso você pode voltar-se mais para dentro ou conectar-se a muita distância. Você trabalha a vela do seu barco.

Lila: O que acha que faz com que as pessoas dancem pouco ou reservem o corpo para dançar apenas em festas ou em sala de aula?

Regina: Na verdade não acho que as pessoas dancem pouco. Eu acho que elas não sabem que estão dançando e uma das coisas que a gente trabalha no campo labaniano é fazer as pessoas entenderem que elas estão dançando, que estão dançando quando estão conversando, sentadas ou em pé. As danças sociais ou as de salão acabam acontecendo em certas festividades. Existem culturas onde a dança é mais presente, mesmo no Brasil nós temos culturas diferentes e a música e a dança são muito presentes. Assim é nas favelas e comunidades, mais do que nas classes média e alta, talvez até por causa dos espaços pequenos que trazem maior necessidade de convivência, e acho que foi um hábito que foi sendo adquirido. E, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, a gente ainda dança bastante. A gente brinca, pula, beija. Tem sempre um samba tocando. A Lapa, por exemplo, é um lugar de dança. Isso sem falar no Carnaval, mas esse pulsar não tão visível da cidade durante o ano inteiro nos ajuda muito a manter a fisicalidade carioca. O que acho engraçado na verdade é como às vezes as pessoas compram roupas caras, vão a restaurantes gastar uma grana, mas acham que para o corpo qualquer coisa serve. Nosso corpo deve receber o melhor, porque é com ele que a gente vai viver durante a juventude até morrer ou ficar doente. Qual é a prática corporal que te faz ficar mais feliz, não na exterioridade, mas como corpo interno/externo, e que te faz mais vital? É preciso sentir vitalidade e felicidade na prática física em vez de fazê-la por obrigação. Isso é fundamental para que você sustente essa prática e que ela possa ser sempre um lugar de encontro interessante. Eu trabalho diariamente a partir do Sistema Laban e com aportes que eu venho inventando coreograficamente.  Às vezes faço quinze minutos, às vezes uma hora, duas, mas o encontro acontece comigo mesma e com o movimento. Deixo o momento me desintoxicar, me deixar luminosa e acho que talvez esse seja o grande segredo da minha proverbial vitalidade.

Lila: Aqui no Cena Crua também adoramos falar sobre beleza e o feminino. Quais são os seus rituais de cuidado com a pele e seus outros segredos?

Regina: Muito cedo eu aprendi a cuidar da minha pele porque eu sou ruiva e tenho uma pele muito frágil. Passei um bom tempo desejando ser morena, me queimando e cheguei a ir ao hospital cheia de bolhas até que eu entendi que eu não ficaria morena, só queimada. Tive uma avó que foi muito maravilhosa na minha vida e que me fez gostar de mim do jeito que eu sou, um pouco diferente de todo mundo. Eu dançava bem nas festas, fiz sucesso cedo, aprendi a gostar da minha diferença. Mas, por tudo isso, comecei a cuidar da pele cedo. Minha avó, que trabalhava com moda, ela era representante da Dior no Rio de Janeiro, me disse um mantra: “limpeza da pele, hidratação e hidratação vem de dentro, complete com um bom creme e nunca coloque nada ruim na sua pele”. Nunca esqueci! Uso sempre um bom sabonete, um bom creme hidratante e bebo muita água. Ensinei a mesma coisa para as minhas filhas. Dormir com a pele limpa e hidratada dá prazer. Eu posso até usar uma maquiagem que não seja muito boa, mas embaixo dela tem um hidratante em contato direto com a pele como base. Uso os mesmos produtos desde que tenho 20 anos. São produtos de um médico suíço, Erno Lazslo. Eles não têm cheiro e não são caríssimos. 

Lila: Como é a sua rotina de autocuidado?

Regina: A minha rotina é muito pouco rotineira, até certo ponto, porque algumas coisas permanecem. Gosto de acordar muito cedo, entre 5:30h e 6:00h. Gosto de esperar o sol nascer e o primeiro sentimento do dia é de gratidão de ver essa luz da manhã que é absolutamente maravilhosa. Começar o dia com esse obrigada por estar viva e poder ver a beleza do dia é invariável. Preparo o meu café, olho mensagens e emails. Se tiver com alguma ideia que aconteceu à noite eu preciso escrever imediatamente. Nos sonhos ou ao acordar sou muito criativa e, se pudesse, trabalharia só de manhã e usaria a tarde para fazer as coisa da vida. Esse é o meu organismo e cada vez mais fui trabalhando nesse sentido. Depois disso, procuro não ficar muito racional e deixo que a dança seja um “deixar sair”. Às vezes eu consigo e faço coisas interessantes, depois tomo nota e começa a vida mesmo. Sei me relaxar dentro do que faço e eu faço muitas atividades ao longo do dia, embora seja importante parar. É isso o que prego às pessoas. Hoje, procuro ter fim de semana, algo que era impossível, ainda mais se estou em temporada no teatro. Antes, eu nem pensava em ter final de semana, fui adquirindo o hábito com o tempo e a ajuda do meu marido. É importante relaxar.

Lila: O que é beleza crua para você?

Regina: Nunca tinha pensado neste termo, mas eu gosto, acho meio Clarice Lispector. O meu conceito de beleza é muito amplo e até não acolhe tão bem aquilo que todo mundo acha bonito. A beleza padrão nunca foi a beleza que mais me atraísse em ninguém, tampouco em mim. Talvez beleza crua seja quando eu percebo que existe algo único, que estou diante de um ser humano único que sabe da sua singularidade e deixa ela à vista. Cada um de nós tem essa coisa maravilhosa de ser um ser único, mas às vezes a gente aplastra as diferenças para ser aceito e ficar igual a todo mundo. A gente perde o tanto de singularidade para ver a mesma paisagem. Imagina se a gente passeando todo mundo fosse visitar o mesmo lugar? Assim é com as pessoas, cada pessoa precisa também que você possa vê-la tirando os seus preconceitos para que essa beleza crua possa aparecer. A gente é mais inteligente e mais belo com quem nos aceita.

*Regina Miranda é coreógrafa, diretora teatral e Analista Comportamental Labaniana. Atua internacionalmente como artista, Personal Laban Coach e por 18 anos esteve no comando do Laban/Bartenieff Institute of Movement Studies, em NYC. No Rio, é Diretora Artística do Centro Laban-RJ e da Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos, que celebra 40 anos em 2020.

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