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NENHUM IDEAL SERÁ MAIOR
DO QUE A MINHA GENEROSIDADE

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Para a minha estreia aqui no CENA CRUA como colunista, escrevi uma crônica que fala sobre a legítima ideia da generosidade que, aliás, me parece uma ferramenta preciosa para viver neste nosso novo mundo (ainda em fase embrionária). Não sei se todo mês serão textos assim, com este estilo, mas estarei aqui para a gente pensar e trocar sobre temas que nos tocam num lugar que é tão humano quanto maravilhoso e inspirador. Espero que gostem!

Jessica da Rosa / Unsplash

Após três dias nos cuidados intensivos, os médicos autorizam minha ida ao quarto. A situação foi tão grave que, desses três moribundos dias, guardei apenas duas lembranças; histórias que contarei em outro momento.

Já no quarto, lembro-me que do núcleo familiar faltava apenas o meu irmão. Pai, mãe, avó, avô e marido estavam ali, juntos, a rodear a cama como fazem à mesa dos parabéns num misto de agradecimento à vida e a dúvida sobre a capacidade física e cognitiva que será revelada pela criança no apagar das velas.

Enquanto minha mãe tentava manter uma conversa com meu avô, cuja audição debilitada despertava a falta de paciência em minha avó, meu pai interrompeu-os com o aviso de que eu estava a acordar.

Foi neste sussurro familiar que a clássica visão desfocada fez-se presente. E, foi através daqueles rostos expressivos e emocionados que senti a vida percorrer meu corpo através de um simples piscar dos olhos, pois todo o resto ainda estava pesado demais, lento demais, para conseguir mexer.

Tentei falar, mas a boca há dias sem água e alimento parecia maior e mais mole que o normal. Aquela sensação estranhíssima de uma extração de sisos. Contudo, minha felicidade era tanta que balbuceio uma, duas, três vezes até que minha mãe traduz o dito a minha avó.

“Mãe, a Lucinha quer a sua ajuda para rezar o salmo 23 pois não se lembra.”

Minha avó entre a senilidade e o nervosismo passou a missão a meu pai; um homem que apesar de ateu, tem por deleite o estudo profundo de algumas religiões, em especial a católica. Na cabecinha dela, ele sabia aquela poderosa oração de cor. Entretanto, pela simples manutenção de sua descrença ou alguma razão desconhecida para todos nós, ele recusou-se a fazê-lo.

A porta bateu. Meu corpo de maneira instantânea estremeceu e senti que o despertar para uma nova vida deu-se exatamente neste momento e não no início do texto.

Ali, poucos minutos após o fim do coma, eu tinha duas opções: julgar e cultivar a mágoa por meu pai não atender meu pedido ou simplesmente agradecê-lo. Sim. Pois a atitude de meu pai criou a oportunidade para eu agir diferente. Estava a minha frente, de forma clara e límpida: que a partir de agora, nenhum ideal seria maior que o poder da minha generosidade.

Esta luz provocada pela rigidez alheia gerou em mim o desejo à flexibilidade, à mudança ou adaptação de alguns preceitos. Entendi que nenhuma verdade vence a fortaleza da humildade do amor.

Exercitar este mantra está no meu cotidiano. Pode ser num jantar à base de animais, quando desconhecem minhas restrições alimentares, e vejo-me a abdicar do ativismo pela apreciação do tempo, preparo e amor que estão naquela refeição. Ou talvez, quando pedem o “ficar em casa” e eu, inicio uma conversa comigo mesma para desfazer qualquer justificativa que permita minha voltinha à beira do Rio Tejo porque no fundo sei que o coletivo pede por menos pessoas nas ruas.

É curioso perceber que quando praticamos a morte do eu, nasce um generoso nós capaz de enxergar beleza, amor, gratidão e perdão em qualquer situação. E,no fim, aparece a tal sincronicidade capaz de realizar seus mais profundos desejos.

Como a porta que volta a bater e meu marido entra no quarto, com o telefone nas mãos e o salmo 23 na tela para que a minha avó pudesse ler para mim.

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Esta sou eu com flores celebrando a minha chegada aqui neste blog que eu adoro! Até o próximo texto!

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