Beleza Crua

MEUS NOVOS ACORDOS COM O ESPELHO

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espelho beleza
Foto: Taras Chernus, no Unsplash

Espelho meu

Se este artigo fosse escrito anos atrás, provavelmente teria um título diferente. Imagino algo como “Meus novos acordos com a balança” ou qualquer outra combinação de palavras em torno disso. Acontece que, assim que a pandemia começou, engordei uns 7 quilos e há meses parei de me pesar, o que não quer dizer que não sinta as transformações do meu corpo ao longo do tempo. Ele é o próprio tempo.

Entre amigas na faixa dos 50, outro dia conversamos sobre os ajustes no olhar que precisamos fazer diante do espelho para que a referência do corpo jovem de antes não se torne uma imagem rígida a ponto de virar quase um fantasma. Tenho horror quando me pego pensando que se voltar a malhar como antes terei minha cintura ideal de novo, me jogando nas costas mais uma cobrança e mais uma meta impossível. Imagina a loucura que seria resgatar uma “barriga negativa” depois de uma gravidez e de ter passado anos priorizando os cuidados com a minha filha e com os boletos!

A supermulher na pandemia

Muda tudo com a idade: metabolismo, colágeno, energia para manter a rotina de exercícios… tudo isso associado ao estilo de vida do momento, e que momento! Quantas de nós deixaram de ir à academia e quantas supermulheres conseguem força e disciplina para se exercitar mesmo em casa? O corpo na pandemia mudou para muita gente e isso é mais uma prova do quanto somos o próprio tempo vivo em cada célula.

A gente demora um pouco, mas percebe que a beleza conquista outros contornos porque, como natureza que somos, ela sempre vai dar o seu jeito de transbordar os limites impostos pelos padrões em detalhes físicos e psíquicos que ajudam a adornar a nossa figura. Nos gestos, no brilho dos olhos, na maneira como falamos e o que falamos, como pisamos no chão, em tudo o que revela a nossa personalidade. Somos como as trepadeiras, não deixamos de expandir a nossa presença diante de qualquer obstáculo ou cenário.

Arte, beleza e identidade

Numa obra de arte, sua identidade é aquele elemento que a torna única e indestrutível ao tempo e à crítica. Arte é arte, e é essa qualidade de soberania que a gente renega quando não está conforme os nossos próprios padrões, antigos e inalcançáveis. A gente se aprisiona num espelho que não reconhece a própria imagem. Nos apegamos à relação cartesiana e machista com a balança que só cospe números e inverdades sobre a nossa beleza e trajetória.

Existem outros valores e medidas para o que é orgânico, sendo isso justamente a forma mais sustentável, saudável e generosa de lidarmos com as mudanças naturais, celebrando a parte boa dela que é a própria essência da vida e da arte. Me sinto viva e bela.

Vale dizer que aquela antiga eu, talvez nunca tivesse sido plena, apenas um substrato daquele tempo passado, no qual vivia sob outras leis, demandas e crenças. Agora, não sei dizer se aquele peso de sempre que moldou meu corpo magro era fruto de hábitos colonizados, embora nunca tenha me rendido a regimes malucos, mas sentia o alerta constante em “manter a boa forma”.

Revendo conceitos sobre a gordura e o Mito da Beleza

Sobre o peso, um tema que ficou grande aqui, estudos mostram que mulheres têm, desde o nascimento, entre 10% a 15% mais gordura que os homens. Na adolescência a proporção entre musculatura e gordura aumenta como um mecanismo para maturar a fertilidade da mulher. Uma mulher de 20 anos tem em média 28,7% de gordura no corpo. Na meia-idade, 38% e “essas proporções não são exclusivas às nações industrializadas e desenvolvidas do Ocidente. Elas são normas características da fêmea da espécie”, segundo citação no livro O Mito da Beleza, escrito nos anos 90 e reeditado recentemente pela jornalista e feminista Naomi Wolf.

Será que fomos programadas para ter um certo peso, como a autora sugere, e assim caber nos sonhos distópicos de um mito de beleza? Ainda segundo as pesquisas apresentadas no livro, a infertilidade e o desequilíbrio hormonal são comuns em mulheres que apresentam percentual de gordura abaixo de 22%. Ela também destaca que os tecidos adiposos armazenam hormônios sexuais e que “por esse motivo, baixas reservas de gordura estão relacionadas a baixos níveis de estrogênio e de todos os outros importantes hormônios sexuais, assim como a ovários que não funcionam”.

Ora, se não for agora o momento de me emancipar da culpa e do medo que meu espelho cisma em me provocar, quando então?

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