Sobre o feminino

FERTILIDADE E GRAVIDEZ AOS 40

por

EM BUSCA DE UM OLHAR MAIS POSITIVO

 

Gravidez aos 40 é um assunto que causa angústia nas mulheres mais positivas que conheço. Tenho uma penca de amigas que não vive exatamente confortável com a ideia de parir depois dos 40, nem perto de. Eu, que engravidei aos 37, cheguei a ouvir de uma médica que não deveria tentar o parto natural porque era uma grávida idosa. Isso mesmo Brasil!

Pois, dia desses, a atriz e diretora Alessandra Colasanti, recém-mãe, publicou no seu IG uma dica de livro, o Gestação aos 40, medo, reflexão, empoderamento, da Silvia Beatriz Machado, com um textão que foi um desabafo necessário. Trouxe luz a um tema-tabu e colocou na roda a sua própria experiência de insegurança ao engravidar aos 46 anos.

Foto: Julia Rodrigues

Assim foi o post:

“Há muita informação, sim, mas o foco é um só: risco, mil vezes risco. Embora seja cada vez mais comum, a gravidez 40+ é tão patologizada pelo sistema que chega a soar como algo inadequado, quase uma gafe. Gestação aos 40, medo, reflexão, empoderamento, de Silvia Beatriz Machado vem para mudar isso. O livro, potente e delicado como uma pérola, conta a história de como Silvia se tornou mãe pela primeira vez aos 41 anos, numa jornada que inclui duas perdas gestacionais, a aventura do parto, a dor e a delícia do puerpério e termina com uma segunda maternidade às vésperas dos 44 anos.

A linguagem do livro alterna o gênero diário, que conduz a experiência da leitura para um terreno de absoluta intimidade, com cartas meio-imaginárias-meio-alegóricas que Silvia endereça para si, para as mulheres em geral, para desconhecidos, elementos da natureza e até para o seu próprio medo.

Eu senti uma grande identificação com a Silvia, não só porque nos tornamos mães-ah!-na-famigerada-idade-da-loba, ou porque não tínhamos a maternidade como prioridade, mas me atrai muito o seu olhar, sua forma de ler o mundo, a misteriosa mecânica das coisas, mirando sempre no lado cheio do copo, no aprendizado contido na dor”, continuou Alessandra.

Gestação aos 40, medo, reflexão, empoderamento conta a história de duas Silvias, a Silvia oficial que vive os eventos da vida e a Silvia profunda, a observadora de si mesma. E nesse aspecto o livro fala de todos nós, porque todos vivemos essa dicotomia entre uma identidade oficial operante e um outro alguém dentro de nós que tudo observa e que se manifesta em sua ambivalência ora como um pequeno carrasco privado, ora como um grande mentor infiltrado.

O livro aparentemente relata a experiência da maternidade da autora, mas paralelamente semeia valores como empatia, gentileza, generosidade, amorosidade, sororidade, conexão e gratidão. Mesmo diante das asperezas da vida é com a espada da delicadeza que Silvia enfrenta seus medos e dores. Como bem diz a orelha do livro, Silvia é uma “especialista em transformar dor em acolhimento e sentimento em linguagem”.

gravidez aos 40

Ainda no perfil da Alessandra, conheci o @maeaos40 um espaço de “informação e acolhimento para quem passou dos 35 e quer ser mãe” como descreve a idealizadora do projeto, Aline Dini. O conteúdo do canal trata de assuntos delicados como a vulnerabilidade emocional das tentantes, aborto espontâneo e também traz muitas histórias de sucesso e um rico material de pesquisa sobre fertilidade, o corpo da mulher, técnicas de respiração, yogaterapia hormonal. Infinitos dados que juntos criam uma outra narrativa muito mais completa sobre o tema.

O que percebi com isso, lendo os relatos que começaram a aparecer no post da Alessandra e depois no meu, enquanto revi a minha própria história e das minhas amigas, é que somos permanentemente cercadas de medo e crítica. 

Tudo fruto da imagem construída por séculos da mulher ideal, aquela que deve ser (ou aparentar) sempre jovem e preparada para a maternidade (ou ter um comportamento maternal). Vem também de como a medicina ocidental encara os nossos corpos.

AYURVEDA E YOGA PARA FERTILIDADE

Somos um universo muito mais complexo do que a matemática dos óvulos que é submetida, sem dúvida, a mudanças ao longo dos anos, sabemos. Pensando nisso, consultei a Jacqueline Guerra, especialista em Saúde Integrativa da mulher com formação em Naturologia, Ayurveda e Medicinha Chinesa. Jacqueline também é jornalista e escreve sobre ciclo feminino, fertilidade e gestação consciente no seu blog e IG Feminino Natural.

Queria uma visão mais ampla da questão, sob um olhar sistêmico que considera os campos energético e emocional como partes fundamentais para o funcionamento pleno da nossa máquina de fazer vidas. 

Sim, na Ayurveda e na Medicina Chinesa existe a compreensão de que o auge da fertilidade da mulher é na fase dos 20 anos e que depois do 30 ela diminui. “Mas por serem medicinas que trabalham os aspectos da vitalidade e longevidade, apoiam a mulher na preparação para engravidar. Quanto mais a mulher conseguir se preparar, mais chances de ter uma gestação saudável mesmo nessa faixa etária”, contou Jacqueline.

Além disso, ela vê com otimismo o movimento das mulheres aprendendo cada vez mais a cuidar do ciclo menstrual desde cedo, isso “está relacionado à saúde a longo prazo e às condições para as mulheres que querem engravidar depois dos 35.”

Jacqueline fala do Garbha Samskara, um ramo da Ayurveda focado na gestação, que dá importância à preparação para uma concepção saudável nos aspectos físicos, mentais, emocionais e sutis.

“Essa abordagem começa com um protocolo de desintoxicação para purificar corpo e mente e uma orientação alimentar para apoiar a fertilidade. Ervas rasayanas e vajikaranas são tônicas do organismo e do sistema reprodutivo que ajudam a ampliar a energia vital (da mulher ou do casal). Demora cerca de 100 dias para que um óvulo e um espermatozóide passem por um ciclo completo de maturação. Como nutrimos nosso corpo influencia a saúde do óvulo e do esperma. O que, por sua vez, determina a saúde de um bebê. Além da alimentação, como o casal nutre seus 5 sentidos na fase da concepção também deixará um ‘imprint’ na formação do feto.”

Sobre as ervas rasayanas e vajikaranas, eu não sabia, elas trabalham de forma complementar muitas vezes e são receitadas de acordo com cada biotipo e estado de saúde. As rasayanas têm efeito de rejuvenecimento, fornecem vigor, força e resistência imunlógica. E as vajikaranas são afrodisíacas e, além de intensificarem libido, nutrem o tecido reprodutivo e apoiam a fertilidade. Algumas dessas ervas são Ashwagandha, Tulsi, Shatavari, Guduchi, Brahmi que na verdade são coadjuvantes de uma alimentação apropriada.

Ainda segundo Jacqueline, “a fertilidade e a expressão do poder criativo partem da mesma fonte, nossa energia Shakti (deusa do hinduísmo que representa a força vital). Quando queremos conceber, é importante fazer práticas de reconexão para manter o fluxo de energia entre o canal que liga o coração ao útero, nosso centro cardíaco ao centro de criatividade. Nos aspectos sutis, esse trabalho pode ser desenvolvido para elevar os padrões vibracionais por meio de mantras e mudras, terapia floral, aromaterapia e Yoga para concepção.”

Roberta Thorlay, fisioterapeuta, doula e professora de Yoga especializada nos ciclos do feminino, fala da possibilidade de alinhar a abertura do útero com a base do crânio, uma região que também é uma entrada, chamada forame magno (onde fica o oitavo chakra, ligado à intuição feminina). Com isso, o sistema reprodutivo se conecta aos principais chackras, entrando no fluxo de energia ascendente, que na Yoga é a chave para alcançar um estado meditativo mais elevado e de hiperconsciência. “Qualquer tipo de estagnação de energia leva a patologias. Assim, com o movimento físico e energético criamos saúde e vida para o nosso corpo, aumentando nosso poder de criação e de fertilidade “, comentou Roberta.

Da próxima vez que uma amiga comentar sobre o frio na barriga porque o tempo está passando vou indicar que se preparem, mesmo que ainda tenham dúvidas sobre a maternidade. Mantenham o corpo saudável, o ciclo consciente e funcionando bem, de preferência naturalmente. E que, principalmente, não vibrem no medo e que conheçam outras histórias de mulheres que passaram pela experiência da gestação perto do 40 com sucesso e alegria.

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2 Comentários

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    Nayara lima
    dezembro 20, 2020 at 4:03 pm

    Parabéns pelo artigo. Não importa a idade, cada uma sabe o seu tempo.
    O que importa é o nosso momento de preparação quando sentirmos que estamos prontas.
    http://bit.ly/guiacompletodamaternidade

    • Avatar
      Reply
      Lila Guimarães
      dezembro 22, 2020 at 12:56 am

      Muito obrigada! É importante ampliar o olhar, conversar e pensar sobre isso de forma mais livre e autônoma. Bjus

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