Colunistas/ Cris Nunes

ESTOU FICANDO LOUCA?
NÃO, É APENAS A NATUREZA FEMININA DUAL

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Por CRIS NUNES

papisa taro

Esses dias, estava me sentindo um tanto incoerente. Em um momento tinha tanta convicção do que queria, mas depois de algum tempo, me sentia completamente diferente, desejando outras coisas.

“Estou ficando louca?”, pensei. “Afinal, o que eu realmente quero?”

Então, vinha aquela pequena crise e uma autocobrança de que precisava me definir o quanto antes. Nos últimos anos, estou tão focada em autoconhecimento e, ainda assim, parece que, às vezes, não sei de mais nada. “É, talvez esteja ficando louca”.

Mas não. Percebi que há algo por trás a que não estava atenta. Isso explica essa sensação ambígua de querer duas coisas ao mesmo tempo, mesmo que sejam contraditórias.

Porque uma parte minha quer fixar raízes num lugar e outra quer flexibilizar, ser nômade e cigana no mundo. Uma parte quer experimentar coisas novas e extrapolar os limites da sexualidade e outra tem mais receio e prefere permanecer no que já satisfaz. Uma parte quer mergulhar fundo e loucamente num único amor e outra quer variar e conhecer pessoas, explorar outros sabores e cheiros. Uma parte quer se especializar num tipo de trabalho e a outra quer estar aberta, misturar e saciar a curiosidade do intelecto.

Nessa hora, me bate a dúvida: “o que escolho?”. “Se eu seguir para um lado nunca mais terei o gostinho do outro?”

Bem, antes de responder essa pergunta ou me pressionar achando que estou ficando louca, é importante esclarecer que existe uma parte mais profunda em nós mulheres que nem sempre se manifesta externamente, embora permaneça ali latente nos influenciando inconscientemente.

Sabemos que somos cíclicas, mas não é disso que estou falando. Há uma camada interna que guarda o segredo da dualidade feminina. É um self mais profundo que possui sentimentos, ideias e vontades bem diferentes do que muitas vezes manifestamos abertamente. Talvez por essa camada possuir uma grande sensibilidade ela se resguarde em um lugar que precise de maior proteção e por isso, ali, permaneça oculta.

Quando queremos saber em qual direção seguir, precisamos compreender a nossa natureza dual. Sondar o que há em nossas profundezas – na “cabana da alma feminina”, como diz Clarissa Pinkola Estés no livro Mulheres Que Correm Com os Lobos.

Porque aprendemos no mundo externo a ver a dualidade de uma forma rígida – certo e errado, bom e ruim, direta e esquerda – e por isso não aceitamos essas contradições em nós mesmas. Na verdade, é a força dessa dualidade que nos torna únicas e que nos motiva.

Se for para eu responder a minha pergunta de qual lado optar, talvez não precise me definir tão rigidamente. O importante é estar atenta às minhas percepções para saber qual necessidade e o que faz sentido para mim no momento.

Com as responsabilidades do dia a dia, nos obrigamos a manter uma linearidade porque o mundo é estruturado para ser seguido numa única reta e com estreitas definições. Então, quando a dualidade interna emerge, ela vem com essa sensação de incoerência. Mas o problema não é a natureza dual e sim as falsas ideias de que precisamos nos encaixar em um caminho previsível e de que temos controle das dinâmicas externas, que desejam firmemente o sim ou o não.

Definições são estreitas e nós somos fluídas como água. Basta ouvir a alma que se comunica pela intuição.

Ter essa percepção requer um treino e alguns mergulhos a fundo. Mas quando o mundo externo lhe pressionar, você vai saber que pode optar por aquilo que precisa e que isso não é uma rígida e imutável definição.

A Papisa: a profundeza da dualidade

Um Arcano do Tarot que representa esse arquétipo dual feminino é a Papisa. Ela está dentro de um templo silencioso, em que os pilares reiteram a dualidade expressa pelo número Dois.

De natureza velada, ela detém uma sabedoria intuitiva, que nada a ver tem com o intelecto da mente. É através da percepção não racional e do silêncio que essa sabedoria é acessada, porque a substância de sua magia está nela mesma. Ela é a guardiã do mistério.

Sentada em seu trono, ela segura um livro sagrado aberto (versão Marselha e Rider Waite). Talvez ela esteja refletindo o que acabou de ler. Não sabemos. Mas o simbolismo do livro indica aquilo que ainda será trazido para realidade através do espírito.

Por ser uma figura passiva, a Papisa permanece receptiva às percepções psíquicas e, portanto, às dualidades. Numa sociedade que valoriza o pensamento linear e ação, a passividade é visto como algo negativo. Porém, para permitir que camadas do inconsciente aflorem, é preciso um distanciamento do mundo externo e a não ação para perceber com mais clareza a voz interna.

A Papisa – ou Grande Sacerdotisa – é a sabedoria feminina no seu nível mais profundo. Ela é o mistério, o silêncio, a meditação, o poder das forças psíquicas, a intuição. Através das dualidades, ela absorve e filtra o necessário.

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