Para pensar junto

EMPATIA E REPRESENTATIVIDADE EM TEMPOS DE Ó@I#

por
representatividade

Dia desses, a antropóloga de consumo e pesquisadora Hilaine Yaccoube postou no seu Instagram uma imagem com a seguinte provocação: “o ódio é o novo normal” e perguntou o que as pessoas achavam disso. A frase, na verdade, é atribuída à psicanalista Maria Homem, outra mulher que anda distribuindo pela Internet um conteúdo excelente sobre comportamento atual.

A leitura daquela cartela com aspas e os créditos para a autora me chocou.  É incômodo dar visibilidade para uma palavra com uma carga tão forte e negativa. Não quis curtir o post, dar a mínima chance para o ó@i# achar que lhe dei algum IBOPE. Apenas comentei: “Acho que o amor vence! Mas o assunto tem que ir pro divã e levar a humanidade toda pra ser analisada com certeza”.

Queremos acreditar que esse fenômeno da intolerância acomete uma minoria. Pessoas que, por algum motivo ou um conjunto de motivos óbvios ou não, encara o mundo com uma espécie de lente distorcida que faz até o amor parecer feio. 

Em escalas de intensidade diferentes, esse sentimento que o Budismo tibetano considera como um veneno da mente anda solto também nos grupos de WhatsApp e por onde quer que encontre um espaço (geralmente vazio de experiência ou informação). Falando assim, parece até que esse texto é mais uma narrativa clássica do bem contra o mau, mas essa não é a minha intenção.

Minha vontade aqui é colocar luz sobre tudo isso, instigada também pelo episódio recente que envolveu o ator Thammy Miranda e a marca de cosméticos Natura. Para quem não acompanhou, a Natura escolheu alguns influenciadores para divulgar a campanha do Dia dos Pais #meupaipresente e Thammy, um homem transgênero que acabou de ser pai, foi um dos escolhidos para fazer parte da ação publicitária no seu Instagram. Por conta disso, ator e marca receberam enxurradas de críticas e manifestações de ódio. Uns em nome da família, outros da moral, de Deus e todos, em resumo, sendo agentes multiplicadores da transfobia (não tem outro nome).

O caldeirão de sentimentos ferve e é complexo, por isso falei com a psicóloga junguiana Iana Ferreira e com a pedagoga gerente de projetos de gênero Viviana Santiago para encontrar uma certa razão acima do moralismo religioso dogmático, acima do conservadorismo ou acima de tudo aquilo que eu mesma não consigo nomear e compreender.

“Lidar com o que é diferente claro que dá muito mais trabalho. Mesmo quando nos parece agradável, assimilar aquilo que é estranho ou novo exige mais elaboração mental. Então, que um desarranjo aconteça diante de novas concepções e opções de vida não é exatamente de surpreender. O problema surge na exaltação disso, nos níveis que vemos atualmente nos casos de xenofobia, homofobia, transfobia, naquilo que leva ao feminicídio etc. Não tolerar de forma tão exaltada indica que o que causa aversão está muito mais próximo do intolerante do que ele presume e isso o ameaça. Freud já apontava que aquilo que não se tolera é sempre algo que não se consegue admitir em si. E Jung via nas várias formas de fanatismo que embasam as atitudes de intolerância um modo de evitar incertezas pessoais e profundas, por exemplo, a respeito da própria sexualidade. Sendo difícil fazer uma elaboração consciente dessas questões, parte-se para a truculência e preceitos morais inquestionáveis, numa forma de tentar garantir uma ordem estabelecida, ordem esta estabelecida sobre alicerces muito frágeis. Estas atitudes apenas mantém suprimida a capacidade de se relacionar com o tema que desacomoda. O que causa temor e repulsa não é exatamente enxergar isso no outro, mas em si”, comentou Iana sobre tudo isso.

Esse labirinto de espelhos em que todos nos encontramos e onde vemos o nosso próprio desencontro como sociedade precisa desmoronar e provavelmente, faça a imagem na sua mente, não vai ser um processo fácil. Ele envolve luta e muita quebração de cabeça, saliva e paciência. Ele pede que falemos sobre isso com cuidado, empatia, e que seja para uma evolução coletiva. 

Para Viviana, o que vimos nessa situação “foi a ação de pessoas que acreditam em si mesmas como a norma, que, mesmo sabendo que normas são construções sociais, decidem impô-las porque elas lhes trazem privilégios. Essas pessoas fazem parte daquele grupo que reage a um novo modelo de sociedade que não deixa ninguém para trás e acolhe todas as pessoas, em sua inteireza, em sua diversidade. O que tem acontecido nos desafia no mínimo a perceber como as normas sociais de gênero nos fazem perder a possibilidade de conviver com tantas outras possibilidades de ser. Acostumadas que estão à norma, algumas pessoas se esquecem que elas são construídas e destrutivas para muitos outros. A norma que cria as pessoas cis, criou as pessoas trans. Não houvesse essa norma, haveria apenas pessoas”.

Por isso, a representatividade na mídia em datas comemorativas como o Dia dos Pais é importante. Essa foi a ideia do casting de influenciadores que a Natura selecionou e que não seriam nem os astros da campanha oficial, como muitos, por medo e antecipação, acreditaram. Aliás, há quem jure de pés juntos que viu a campanha estrelada por Thammy e que por isso ou por aquilo definitivamente vai cancelar uma das empresas que mais dá emprego e oportunidades para os brasileiros.    

Vale lembrar que os brasileiros vivem uma vida plural com suas famílias de configurações infinitamente distintas. O que não vale é dizer que só a “família tradicional brasileira” ou a família cristã tem direito ao respeito (veja o vídeo da Maria Homem, A família como fetiche, no qual ela desconstrói mais esse mito contemporâneo).

Pessoas trans amam seus filhos, cuidam de seus pais, apoiam seus irmãos… tudo no modo mais tradicional e é por isso, exatamente por isso, que representatividade importa. Pais de todos os tipos existem e eles podem ser homenageados sem que isso diminua a representação e relevância de homens cis ou até de mães solteiras que também cumprem lindamente o papel da paternidade com afeto e responsabilidade. 

Representatividade é educação, é o que dá visibilidade a quem é marginalizado, o que gera possibilidade de diálogo. É aquilo que tem o propósito de congregar, de reunir e de não separar. Não seria isso? Espero que sim! Feliz Dia dos Pais com muita empatia, presença e amor!

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