Beleza Crua

BELEZA ROUBADA

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Eu, reproduzindo técnicas de maquiagem com contorno em todo o rosto

Faz tempo ando pensando no quanto não só o nosso comportamento tem sido moldado pelos ambientes virtuais, principalmente, a forma como nos vemos. No documentário O dilema das redes, da Netflix, especialistas mencionam o aumento das cirurgias plásticas em pessoas que buscam suas “melhores versões” como as que experimentaram nos filtros do Instagram.

Nos vídeos de tutorial de maquiagem chamam atenção as técnicas de contorno do rosto. Produtos e pincéis específicos existem só pra isso. Os efeitos podem ser dos mais discretos aos artificiais, super exagerados, a depender do gosto.

Harmonização facial tem até em shopping e a promessa é que tudo fique mais organizado, proporcional, simétrico e belo. A ordem apolínea é tão antiga e enraizada nas nossas ideias sobre a beleza que fica realmente difícil essa dissociação. Acontece que na natureza nem tudo é perfeição estética, suas formas singulares e inteligentes são capazes de burlar até as mais rígidas regras sociais da beleza.

Já reparou que o charme de uma pessoa pode estar exatamente naquele “defeitinho” ou que o interessante mesmo é o que é único, autêntico e o que tem personalidade? Para pra pensar nas pessoas pelas quais se apaixonou. Eram elas todas perfeitas? Deusas e Deuses como Afrodite ou Apolo? O que, à primeira vista, fez com que você prestasse atenção nelas? Muitas vezes nem conseguimos explicar, alguma coisa mexe dentro da gente. Química, encantamento ou até uma tontura.

Penso que a beleza de cada um é como uma obra de arte que não pode ser definida apenas pela qualidade de agradar os olhos pela harmonia. A arte muitas vezes incomoda, marca, transforma. O belo pelo belo apenas causa suspiro, entretém, mas não impacta as vísceras. Tudo isso vem com uma certa dose de imperfeição, um traço de caos, uma centelha dionisíaca que perturba e faz com que o deslumbre permaneça em nós por tempo indeterminado, mesmo que em forma de lembrança. Uma verdadeira obra de arte é aquela que continua vivendo em nós depois do primeiro e único contato.

A BELEZA NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

Nossos feeds estão lotados de rostos parecidos, desenhados com a mesma lógica matemática que dita o que seria a beleza dos tempos atuais. Tempos de reproduzir a partir de um “modelo original” que de original não tem mais nada. De roubar a beleza real assim sem aviso.

Lembrei do ensaio de Walter Benjamin que teve sua primeira publicação em 1936, A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Nesse trabalho, em resumo, o filósofo e sociólogo alemão atenta para a perda da autenticidade, da “aura”, da obra de arte quando é reproduzida tecnicamente e fala das implicações da distribuição de “cópias” em massa na política e na vida. É complexo, mas muito próximo ao que acontece com a beleza hoje nas redes.

Destaquei alguns trechos do ensaio e sugiro um exercício de leitura: vamos substituir as palavras obra de arte por beleza e tradição por natureza? Será que lá atrás o autor iria imaginar que estaríamos hoje vivendo esta padronização em massa da “beleza”?

“…o que se atrofia na era da reprodutibilidade técnica da obra de arte é a “aura”. Esse processo é sintomático, e sua significação vai muito além da esfera da arte. Generalizando, podemos dizer que a técnica da reprodução destaca do domínio da tradição o objeto reproduzido. Na medida em que ela multiplica a reprodução, substitui a existência única da obra de arte por uma existência serial.”

“Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra. É nessa existência única, e somente nela, que se desdobra a história da obra.”

Relendo O paraíso são os outros, livro do Valter Hugo Mãe, encontrei a seguinte passagem: “As pessoas são diferentes. Aprecio muito que o sejam. Fico a pensar se me acharão diferente. Adoraria que achassem. Ser tudo igual é característica de azulejo na parede e, mesmo assim, há quem misture.” Sou dessas que prefere uma parede ou, melhor, um feed com mistura de rostos de todos os tipos, respeitando também as escolhas, até as mais previsíveis e técnicas. De toda forma, continuo sendo uma entusiasta da beleza crua de cada um e da expressividade única e brilho que ela tem. E você?

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