Beleza Crua

BELEZA ANCESTRAL

por
beleza ancestral
Fotos: Victor Affaro

“Mais do que dor, a gente tem em comum talento e beleza. Sabemos falar de mazelas, mas podemos falar de flores com a mesma competência”, a atriz, jornalista e diretora de cinema Shirley Cruz, que também é colunista do CENA CRUA, abre os caminhos para uma pauta preciosa: beleza e identidade.

Ela e Bruna Aiiso, também atriz e apresentadora, se conheceram nos bastidores da novela Bom Sucesso, exibida em 2019 na TV Globo. Do encontro, vieram descobertas identitárias e a vontade de fortalecer suas potências, seja militando contra o racismo ou criando projetos artísticos juntas. “Posar com a Shirley neste momento, principalmente, reafirma a nossa nacionalidade. O Brasil é isso, precisamos ver a realidade da sociedade refletida na arte, na moda, onde for”, me contou Bruna.

Shirley veste Flavia Aranha e Bruna veste Isaac Silva, ambas de make total Bioart, com base, máscara de cílios e gloss bionutritivo em diversas cores como sombra, batom e blush

Neste ensaio, elas vestem cores, cortes e acessórios que reverenciam suas ancestralidades e makes que acentuam seus traços, mas tudo isso vira detalhe quando somos arrebatados pelo magnetismo de tanta presença. Como duas rainhas contemporâneas, 202% brasileiras e maravilhosas, elas trazem no olhar afetuoso, porém atento e firme, um discurso tão evidente quanto urgente. É preciso falar de representatividade, respeito, amor e revolução.

Shirley e Bruna vestem Fernanda Yamamoto com joias Brennheisen e make com base, máscara de cílios e gloss bionutritivo Terracota Bioart, ecoglitter dourado O Boticário, iluminadores Minimalist Sunset (dourado na Shirley) e Minimalist Glow Me (perolado na Bruna) com blush cremoso (Minimalist Bloom), tudo Baims

Olhar para a própria beleza não-branca, se reconhecer, se validar e se cuidar é inspirador e revolucionário, sim, principalmente neste país. Um mecanismo de resgate de poder individual que tem a capacidade de construir um outro mundo possível, no qual a maioria da população, por exemplo, não seja mais considerada minoria em nenhum espaço. Nossa conversa aconteceu entre alguns silêncios, porque a cada relato, era preciso uma pausa para metabolizar a natureza das suas experiências.

Shirley usa chemise Flavia Aranha com colar Isaac Silva, make Bioart

“Sou fruto de olhar a TV e ver a Glória Maria no principal jornal. Precisamos ganhar tempo nas ações. Uma coisa é fazer uma visita numa comunidade e dizer que uma menina ali vai conseguir. Outra coisa é ela ligar a TV e me ver numa personagem feliz e bem sucedida. Quero provocar, incentivar as mulheres, as meninas pretas e dizer: “ Vai, pode ir, vai dar certo”. Desde muito cedo senti que ter autoestima é ter poder, mas não descobri isso sozinha. Fez toda diferença a força e o amparo da minha família, o esforço da minha mãe e a inteligência emocional do meu pai. Pensa: é o tempo todo o mundo te dizendo que você é feia, mas a sua avó, a sua tia, a sua madrinha, o seu tio dizem que você é bonita. Sempre me comportei como tal. Me fortaleci e me protegi. É todo um trabalho psicológico. Você vai entrar no meu IG três vezes por semana e vai me ver celebrando a minha beleza. A beleza pode ser uma questão de gosto, mas não vou ser hipócrita, no meu inconsciente vez em quando o feio e o bonito duelam, porque nem eu com o meu olhar tão amplo consigo captar a imensidão de todas as possibilidades. Certamente se meu corpo nunca tivesse sido sequestrado da África, eu teria desde sempre lindas e poderosas referências. “Black is Beautiful” é recente aqui no Brasil. O filme “Cidade de Deus” foi um marco para muita gente, nos vimos lindos! Como faz para acreditar que você é bonita se você vai para uma entrevista de emprego e te pedem para alisar o cabelo? Há muito pouco tempo é bonito ser preto aqui. A imagem da mulher preta sempre foi maternal, serviçal ou sexual. O subconsciente da branquitude é ultrapassado. O corpo veio, mas a mente ficou. Precisamos desfazer esse estrago”, falou Shirley.

Bruna veste bata Isaac Silva com colar Suzana Fernandes, na loja Tom, e make Bioart

“Mesmo no meu lugar de privilégio, em vários momentos a gente se identifica, algumas situações se conectam como a questão do fetichismo e da hiperssexualização dos corpos pretos e amarelos. Em 2019, na Revista EXAME, saiu uma matéria afirmando que a palavra mais buscada nos sites de pornografia era “japonesa”. Eu não descobri o racismo depois de adulta. Quando era pequena, vi minha mãe sendo perseguida no mercado. Minha mãe é preta e meu pai é amarelo, eles são brasileiros. Eu sou neta de japonês e ainda sou vista e escalada para trabalhos como estrangeira. Isso gera uma confusão mental de pertencimento em todo mundo. Depois de entrevistar mais de 60 artistas ascendentes de leste-asiáticos em “Brasileiros”, uma série de Lives no meu IG, vi que isso é um sentimento coletivo, é um desconforto total, porque limita as nossas possibilidades e oportunidades. Ficamos na pastinha de “orientais” no arquivo do produtor de elenco. Maria, 35 anos, poderia ser eu, mas se não tiver uma observação de que ela é preta ou amarela ou vermelha, eles vão contratar artistas que representam o padrão branco ocidental. Sem contar os casos de whitewashing (quando um personagem não-branco é interpretado por um ator branco). Hoje, não aceito certas personagens. Preciso saber se estou ali para enfeitar ou para fazer alguma diferença na trama. É importante estar inserido nessas produções, caso contrário, a gente não consegue visibilidade nem diálogo. Quando furamos a bolha da branquitude, podemos alertar o diretor que a fala do roteiro é racista. Muitas vezes não nos vemos, mas somos bem mais diversos. A comunidade LGBTQIA+ também precisa estar em todos os espaços. Isso é a vida real. Demorei para me aceitar e me entender, para saber o meu lugar no mundo. Na adolescência, é comum a gente se questionar sobre a nossa estética, eu não via garotas parecidas comigo nas revistas da época, então me sentia perdida. Hoje, me sinto e me vejo bonita. Entendo que não preciso ser diferente da minha natureza para ter o meu brilho”, disse Bruna.

Bruna veste Isaac Silva e Shirley veste Fernanda Yamamoto com anéis Brennheisen, ambas com brincos Iskin Sisters, na loja Tom
beleza ancestral
Bruna veste Fernanda Yamamoto com joias Brennheisen e Shirley veste Fernanda Yamamoto com anéis Brennheisen e colares Evelyn Tannus

Sim, a beleza real é aquela que reflete o brilho de quem busca intimamente sua essência, força e ancestralidade. Até agora suspirando por aqui, vendo e revendo cada foto!

Fotos: Victor Affaro / Make: Katherine Portillo

Make: Bioart, Baims, O Boticário

Moda: Fernanda Yamamoto, Flavia Aranha, Isaac Silva, Brennheisen, Tom e Evelyn Tannus

Agradecimentos: Tino Aiiso, Shinlife Seguros e Benefícios, Maha Mantra Culinária Orgânica, Ímpari Assessoria, Marcia Fonseca, Macondo Plantas e Afins, Fabiano Hermógenes e Bete Fernandes.

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