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AS PLANTAS E O MEU JEITO DE ADIAR O FIM DO MUNDO

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Não sei você, mas vira e mexe sou tomada por algumas leituras. Como se elas falassem especialmente e exclusivamente para mim, mesmo que escritas em 1906 ou em 1922. E caem tão perfeitamente para o momento que estou vivendo que fecho os olhos, respiro fundo e agradeço a essa vida mágica e louca.

Foto: Bogdan Yukhymchuk, no Unsplash

Às voltas com a abertura da Macondo*, em um quintal muito especial no meio da Vila Madalena, pensando e repensando no seu conceito e vocação me deparo com esse trecho do livro Regenerantes de Gaia (Dantes Editora), de Fabio Rubio Scarano:

“…Precisamos voltar a habitar a morada dos instantes eternos, aqueles nos quais portais invisíveis se abrem para nos presentear com beleza, verdade e amor; seja no silêncio, na voz ou na música, seja na luz ou no escuro. Segundo Ailton Krenak, para adiarmos o fim do mundo** temos que contar mais uma estória. Em casa, na rua, num auditório, numa roda aquecida pelo fogo ao centro, na beira de um rio. Para uma criança antes de dormir, para uma pessoa idosa que repousa, para a pessoa amiga ou amada. Durante a estória contada ou ouvida, a eternidade se prolonga: uma cápsula de tempo na qual navega a esperança, que nos impulsiona a seguir adiante…”

E a luz da lâmpada que estava piscando e piscando se fez mais forte! Foi assim que numa leitura despretensiosa tive a certeza de que o que tanto desejava fazia sentido. 

Esse novo lugar que a Macondo passa a ocupar oficialmente a partir de março será um ponto de encontro em torno da Beleza, por meio de aulas, cursos livres, vivências, saraus e pequenos shows. Astrologia, literatura, dança, cinema, moda, música, fotografia estarão no centro, sempre com professores convidados. Tudo isso cercado pelo verde e proteção das plantas.

Penso que cada vez mais devemos nos cercar de poesia e de encontro. De estórias, como bem diz Krenak. E minha imaginação automaticamente recorre a trechos de músicas, ao perfume de uma rosa branca, a um poema, a histórias de quem abriu caminho para estarmos aqui livres, ainda que ameaçados, atentos e fortes, tentando abrir outros e potentes caminhos para quem vem a seguir. E cantarolo baixinho os versos do hino de Nelson Cavaquinho, Juízo Final:

O sol há de brilhar mais uma vez

A luz há de chegar aos corações

O mal será queimada a semente

O amor será eterno novamente…

Ou ainda, Mario de Andrade, no prefácio de Paulicéia Desvairada – ele, o primeiro a falar baixinho no meu ouvido que o que vale é seguir o coração. Nesse momento: nova anfitriã morena, de cabelos cada vez mais brancos, torcendo para encontrar muitos outros curiosos e livres a compartilharem plantas, chás, vinho, livros e muitas histórias. 

“…Com o vário alaúde que construí, me parto por essa selva selvagem da cidade. Como o homem primitivo, cantarei a princípio só. Mas canto é agente simpático: faz renascer na alma dum outro predisposto ou sinceramente curioso e livre, o mesmo estado lírico provocado em nós por alegrias, sofrimentos, ideais. Sempre hei de achar também algum, alguma que se embalarão à cadência libertária dos meus versos. Nesse momento: novo Anfitrião moreno e caixa-d’-óculos, farei que as próprias pedras se reúnam em muralhas à magia do meu cantar. E dentro dessas muralhas esconderemos nossa tribo.

* A Macondo é o meu projeto de plantas e afins, arranjos, design floral e outras experiências e ideias que partem dessa relação de infinita inspiração com a natureza

**Leia Ideias Para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak _ Compainha das Letras

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