Para pensar junto

UM JOVEM MÍSTICO NÃO QUER GUERRA COM NIGUÉM

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Tudo começa com uma visão questionadora e supostamente bem- humorada sobre ideias e práticas espirituais duvidosas, mas dependendo da abordagem alguns conteúdos têm virado gatilhos para o PRECONCEITO e a intolerância.

Resultado: um movimento de perseguição contra o que chamam de “jovens místicos” vem rolando nas redes com tons do deboche ao ódio. Nem vou citar aqui os perfis que mais instigam isso para não cultivar uma guerra perdida. Alguns são cientistas e eu sou apenas uma jornalista mística, talvez um pouco diferente da caricatura que eles pintam principalmente por não ser tão jovem.

Foto: Mariana Caldas

Na verdade, sou uma mulher de 40 anos que durante toda vida teve experiências complicadas de contar. Pela natureza desses acontecimentos herméticos, tão íntimos e particulares, não faria sentido se eles virassem narrativas. De qualquer forma não estou disposta a me esconder ou a me envergonhar por ser uma pessoa exatamente mística.

Mas afinal, o que é ser místico? Para os autores de “O Livro das Religiões”, de 1989 reeditado pela Companhia das Letras, uma experiência mística é em resumo “a sensação direta de ser um só com Deus ou com o espírito do Universo”, e não importa o nome que ele dê a isso: Universo, Cosmos, radiância divina, grande consciência, força criadora, Eu superior, amor incondicional… O místico é aquele que “anseia por se libertar de sua existência individual”, ele busca totalidade. Justamente, por isso, qualquer julgamento cético não cabe aqui, nunca coube.

Essa é uma necessidade e faculdade naturais, instintivas, do homem de procurar no inexplicável, no imaterial, caminhos, soluções, fundamento, identidade e acolhimento. Desde sempre foi assim, nossa subjetividade abarca imaginário e espiritualidade como formas de seguir neste plano com a sensação de não estarmos apenas vagando num mar caótico de possibilidades. Não que a vida tenha que ter uma explicação, mas a fé é maior que isso.

Fé e religiosidade são traços comuns a todas as culturas, das mais remotas e ancestrais até as mais contemporâneas e urbanas. Religião me sugere dogma, instituição e a mão controladora e gananciosa do homem. Gosto de algumas liturgias, rituais e legados mitológicos como inspirações. Prefiro dar importância à fé e sua força transformadora.

Sou adepta das práticas holísticas e de trabalhos integrativos de saúde. Respeito conhecimentos ocultos, amo Jung, Tarô e por aí vai. Também valorizo a Ciência moderna e vibro com seus avanços e descobertas. A realidade chapada tal qual vemos a olho nu ou lemos nos noticiários nunca foi uma abordagem do mundo satisfatória pra mim. É uma escolha de vida que não pretende passar por cima de ninguém.

Por fim, a questão central desse texto, é refutar qualquer forma de preconceito. Primeiro porque já vivemos tempos de intolerância, distanciamento e polaridades demais, depois porque o preconceito pressupõe a negação de um outro ponto de vista e a generalização, tudo o que bons cientistas devem recusar se querem evoluir em suas áreas de atuação.

O benefício da dúvida, a curiosidade, é o ponto de partida para a Ciência desvendar os mistérios do mundo. E a Ciência, embora seja indispensável e maravilhosa, ainda não consegue responder ou validar certos eventos e fenômenos relatados desde o início da nossa humanidade. Seja por falta de instrumentos, metodologias ou até interesse econômico.

No entanto, entendo algumas contestações e acho válido o olhar crítico para o que circula por aí como uma tendência de comportamento alienado e disfarçado de “good vibes”. Percebo que parte disso é ingenuidade ou superficialidade, o reflexo de uma aderência em massa e imediatista ao modismo, lifestyle e mercado que se formam em torno da espiritualidade.

Outra camada mais densa e séria desse rolê, são os oportunistas, charlatões, pessoas que se aproveitam da fé de outras para tirar vantagem (até sexual) e ganhar dinheiro. Há muito despreparo e audácia para lidar com a “cura” ou posições de guiança. Mentira, achismos… Sim, nesse meio, como em muitos outros, vemos isso tudo e também muita falta de consciência de classe, a prática velada e escancarada da positividade tóxica e o narcisismo espiritual – expressão criada pela psicóloga holandesa Roos Vonk, segundo uma nota da Revista Trip (leia aqui com ressalvas já que se trata de um material incompleto e conta com pelo menos uma fonte de conduta polêmica) – que nos discrimina assim como qualquer preconceito.

Neste ponto, aproveito para indicar o episódio Espiritualidade Tóxica do podcast É Nóia Minha, conduzido por Camila Fremder com os convidados André Carvalhal, autor do livro Como Salvar o Futuro: Ações para o Presente, entre outros, e a ex-mística convicta e misteriosa editora do IG @espititualidademercantil que faz um conteúdo inteligente e provocativo questionando o comportamento compulsivo e ostensivo de uma galera meio sem noção.

É preciso separar o joio do trigo. Generalizar não ajuda! Um debate interessante sobre essas problemáticas pede estudo, conversa, cautela, respeito e empatia. Assim como a atualização sobre as pesquisas científicas mais recentes em torno de fenômenos como a Percepção Extrassensorial, como vemos no documentário Super-humano: O Invisível se Torna Visível, de 2020 da diretora Caroline Core (disponível no Amazon Prime).

Ao longo desses anos de busca espiritual, estive com pessoas maravilhosas com bons propósitos, comprometidas com o coletivo, tive acesso a uma longa lista de rituais e práticas de bem-estar que me resgataram de crises de pânico e ansiedade, fiz leituras que me ajudaram muito a ter mais saúde emocional, autoconhecimento, autoestima e a ser mais pacífica e consciente, inclusive, compreendendo melhor a trama em que vivemos, me reaproximando das pessoas com mais capacidade para ouvi-las e da natureza, me tornando mais responsável com o meio ambiente. Fui enganada em algum momento dessa jornada? Certamente fui, mas continuo em frente, firme e atenta!

Ouvir palavras como “namastê” sendo ridicularizadas, por exemplo, deve doer, dói até em mim que não tenho raízes no Oriente. Deturpar filosofias ou doutrinas por interpretações equivocadas e simplistas é antiético. Luz e razão não se fazem em meio a ruídos ou palavras desmedidas, nem com posturas presunçosas. O veneno está aí, bebe quem quer! Abra a cabeça e o coração, veja e sinta além e, se puder, ame um místico de verdade. Garanto, isso é tudo o que ele quer!

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