Para pensar junto

A COR DA MINHA SUBJETIVIDADE AGORA

por

Esses dias andam tão malucos e o blog, aqui, um espaço para textos mais densos, foi ficando para depois. Adoraria escrever mais, mas compreendo o momento e assumo que está difícil ter tempo para organizar as ideias em palavras bonitas e significativas.  

Tenho feito vídeos no IGTV que são mais rápidos muitas vezes de produzir. Mas esse blog sem novidade estava me deixando triste, então entrei para escrever sobre um assunto que me levou a outro.

Queria falar sobre o batom vermelho (tema de um dos vídeos, aqui), mas antes disso, quero falar do vermelho, cor primária, feminista, que simboliza luta, liberdade, ação, poder, caos, criatividade e muito mais. Tenho na minha mão uma ótima fonte de informações a respeito desta e de outras cores: A psicologia das cores, da Eva Heller!

Foto: Mariana Caldas

Acontece que com isso acabei me lembrado de um texto guardado que escrevi para não publicar, só para documentar a sensação daquele momento, quando menstruei pela primeira vezes depois do parto da minha filha. Sobre isso, aliás, eu já tinha comentado em Lua, livro, calcinha e sangue, um outro olhar para o poder feminino, com uma abordagem quase técnica sobre o assunto, mostrando alternativas mais sustentáveis (inclusive emocionalmente) que encontrei na época para lidar com as minhas lunações.

Bom, o texto que estava guardado é um borrão de sentimentos e o seu conteúdo é todo espasmo de subjetividade minha. Algo que respeito e aprendo a gostar. E porque a subjetividade tem sido um grande tema em tempos de distanciamento social (como falei recentemente em dois vídeos, aqui e aqui) e porque acredito no insconsciente coletivo, especialmente no das mulheres, resolvi abrir esse borrão e de certa forma me comunicar com vocês por aqui de uma forma mais livre e íntima. Talvez a minha subjetividade possa conversar com a sua. Tomara! Aqui vai:

Sempre tive medo de ficar louca. Louca sem volta. Sempre tive medo de pular o muro que me separava da insensatez. Eu, uma mulher de inteligência mediana e sensibilidade aguda. Uma mulher vivendo neste planeta sob um signo de terra. Entre nós, aquele muro estava sempre lá meio baixo demais para ser considerado muro. A qualquer momento eu poderia apenas tropeçar, era só bater um vento mais forte e tombar. Era assim que eu vivia. Com medo de cair para o outro lado, num mar vermelho revolto de loucura sem banco de areia, sem salva-vidas, sem bote, sem boia, sem jeito de voltar. Agora, eu morro de medo é da pessoa normal que eu me tornei com os pés tão fincados do lado de cá. Eu tenho medo de não sair mais desse estado. De ser uma pessoa programada como as que cabem nas estatísticas, previsível como as que seguem as leis de mercado. As que vão ao shopping e compram coisas inúteis só para suprir um desejo de sei lá o quê. Reclamo quando algo sai do esperado. Me canso de tudo, quero sossego, a minha cama. Não quero falar com ninguém, mas me sinto sozinha. Me angustio se tudo parece diferente. Não sei mais surfar na confusão dos meus hormônios. Sobreviver ao ciclo menstrual é o meu maior esforço. Precisei voltar a sangrar para sentir então que eu tenho estado dura, sistemática demais com os afazeres da vida. Mas também para lembrar que a sombra sempre esteve lá, do outro lado me acompanhando, me chamando de vez em quando, flertando comigo. Ela me seduz, a loucura, ao final, me fazendo perder a coerência. Me sangrando inteira, me vendo descer pelo ralo num caminho para o nada… o tudo. Hoje, quero me trair. Burlar a rigidez da mulher madura, casada e mãe. Na verdade eu não sei mais de mim, ando perdida, me perdi. Aqui dentro eu faço a mesma pergunta muitas vezes durante o dia, ecoa e bate nos meus órgãos, mas de volta não vem resposta. Não tem resposta? Eu preciso falar com quem? Ou é o silêncio que vai me dar a chance de ouvir o mistério. Minha pedra do momento, me diz. A jade de fogo vermelha, ela aponta para baixo, e eu sinto que é de lá que está vindo uma revolução. Eu não sei se mato alguém ou me mato, alguém precisa morrer, acho que alguém parte de mim, uma parte de mim. Sinto uma força oculta que está sempre prestes a arrebentar, uma maré de ressaca, uma coisa meio batida de fluidos que não podem ficar parados num mesmo lugar. Nem escondidos. No fundo, eu voltei a mexer e remexer um caldeirão perigoso, íntimo e secreto. Um verdadeiro vespeiro, não dá para confiar.

E você, qual a cor da sua subjetividade agora?

Inscreva-se na nossa newsletter!

FEMININO E MASCULINO NA QUARENTENA

Você pode também gostar de

Sem comentários

Deixe uma resposta