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CLÓVIS BORNAY E CLARICE LISPECTOR
NUM CARNAVAL QUE NÃO ACONTECEU

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Uma verdade inventada

Em uma entrevista com “senão o maior carnavalesco de todos os tempos”, Clarice Lispector, em 1969, se rende ao mundo subjetivo e alegórico de Clóvis Bornay e confessa estar com a “cabeça virada” querendo ser “o firmamento com minha túnica negra bordada de estrelas de cristal”.

“Firmamento” foi o nome da fantasia que Clóvis inventou para a escritora durante a conversa. A descrição completa do look é “uma túnica de renda negra cravejada de estrelas de brilhantes. Na cabeça a meia-lua e numa das mãos uma taça de prata derramando estrelas.”

clarice lispector carnaval

No final do ano passado reli partes do livro De Corpo Inteiro, uma coletânea de entrevistas feitas por Clarice com personalidades icônicas. Também fiquei com a cabeça virada imaginando a beleza dessa roupa e o quanto seria mágico dar vida a uma imagem tão poderosa, quase arquetípica, que surgiu do encontro entre duas lendas.

Eu, que amo o Carnaval e adorava assistir os concursos de fantasia na TV toda vez torcendo por Clóvis e que desde que li Clarice nunca mais fui a mesma, pensei ser impossível ficar sem a experiência de vestir esse “Firmamento”. Porque mais do que uma homenagem aos artistas, mais do que um tributo ao Carnaval, que este ano acontece só no coração sofrido de saudade, isso seria um exercício de presença e estado em qualidades que me interessam muito.

Sem pensar muito, passei um áudio pra Heloisa Faria (estilista e amiga), com quem fiz uma coleção no Carnaval passado. Li o trecho da entrevista com a descrição da roupa. Ela vibrou e assim decidimos que este seria o nosso projeto para não deixar o samba morrer este ano, já que tínhamos planejado a segunda collab para a folia.

carnaval

A nossa versão do “Firmamento” foi criada em uma semana inteira de bordados feitos à mão pela própria Helô, com a paciência e o talento de uma feiticeira. Ela usou lantejoulas prateadas que ganhou da família de uma amiga dona de um armarinho nos anos 70. Estavam guardadas com outros berloques que bordou como pontos de luz na renda preta representando as “estrelas de brilhantes”. Tudo material do seu acervo. Tudo parte da sua história.

Fiquei imaginando por onde ela andou enquanto trabalhava nesse vestido, o que revisitou, quais as pessoas, cenas, músicas, quais as simulações que sua mente costurou entre o passado e o instante presente.

carnaval

Firmamento

Pra gente, nada pareceu mais apropriado para o momento do que uma fantasia chamada “Firmamento”. Palavra sinônimo de alicerce, centramento, coragem, solidez, solitude e até solidão. Resiliência, força interior…

Firmamento é a respiração profunda, o conforto na relação com o vazio, é a falta de ansiedade, de medo. É o aqui/agora. Agora.

Também é sobre os acordos diários que fazemos com a gente e com o mundo, quando resolvemos apesar de tudo reafirmar a fé na vida, na beleza de tudo, confiando no fluxo natural das coisas e na dinâmica universal morte e vida como geradora de ainda mais vida.

carnaval ritual

Em Água Viva Clarice escreveu: “Meu tema é o instante? Meu tema de vida. Procuro estar a par dele, dividindo-me milhares de vezes em tantas vezes quantos os instantes que decorrem, fragmentária que sou e precários os momentos – só me comprometo com vida que nasça com o tempo e com ele cresça: só no tempo há espaço em mim.” Clóvis captou a essência disso.

Gênio do Carnaval, ele criava e vestia três fantasias por ano com ajuda de costureiras e aderecistas para desfilar nos bailes e concursos do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, de São Paulo e na avenida com as escolas de samba. Sua primeira fantasia oficial ele fez em 1937 e tinha o título de “Príncipe Hindu”. Foi feita de pedras de cristal de um lustre abandonado. Lá atrás, ele já brilhava no upcycling!

“O mundo: um emaranhado de fios telegráficos em eriçamento. E a luminosidade no entanto obscura: esta sou eu diante do mundo”, Clarice Lispector em Água Viva.

Também reciclamos o colar de meia lua feito pela Casa Medusa e que na coleção passada era um cinto. Ele foi o auge da licença poética neste look, assim como a pulseira de strass que eu fiz com fios reaproveitados de outras produções. A ideia era simbolizar a “taça de prata derramando estrelas”.

Fotos: Victor Affaro

Outra obra da Casa Medusa foi a cabeça feita à mão em latão. Achei Clóvis bem entendido quando escolheu uma meia lua para adornar o Firmamento. Nos conectamos com a fase minguante para definir este desenho, lua que sugere uma atmosfera de magia e de sabedoria oculta.

Lembrei da Mulher que Mingua, carta do Oráculo da Mulher Selvagem, escrito pela Jennifer Perroni (tem Live com ela no IG do Cena Crua). “Ela é Aquela que sabe e traz o arquétipo da interiorização, que permite que a mulher permaneça firme em si, ainda que esteja em meio à desordem, ao caos, ainda que esteja no olho do furacão”. Esta sou eu, Helô e todos neste Carnaval que não aconteceu.

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