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Colunistas/ Mercedes Tristão/ Para pensar junto

BELEZA EFÊMERA

por

Começo esse novo texto pedindo desculpas à minha amiga e editora Lila, por não ter entregue a coluna de março. Adoraria que o ato de escrever fosse mais automático pra mim. Mas, a esta altura, preciso acolher esse processo que se faz de muito sentir, pensar, repensar. E isso, de fato, demora. Tecer primeiro os pensamentos no coração para então transformá-los em palavras.

Pois. Como muitas de vocês estou nesse processo de entendimento, de escuta. Interna e externa. Escrever sobre o quê, já que tanto vem sendo dito, aconselhado, refletido? Mas vou tentar me concentrar então nos temas que propus a trazer aqui no CENA CRUA, por meio da minha experiência com a Macondo.

Inauguramos oficialmente o espaço físico da Macondo no dia 3 de março com uma festa linda, com tantos amigos que admiro e amo junto. Com música, claro. Já não sei qual será o futuro daquele lugar. Quem sabe, aliás, o futuro de qualquer coisa agora? Mas, enquanto tudo estava dentro da normalidade que até então tínhamos como referência, havia decidido ter apenas plantas em vasos, sem flores de corte – que sempre tive em casa, em arranjos espalhados pelos cantos -. mas achei que faria mais sentido a combinação terra e muda.

De uns tempos pra cá, passei a me questionar sobre o ato de comprar flores e, estranhamente, cheguei a voltar pra casa sem nenhuma haste florida e perfumada ou simplesmente substituía por novas mudas. Passei a me incomodar com elas expostas ali em baldes de plástico, envolvidas em mais plástico, à espera de um comprador. Até mesmo no jardim de casa, quando os botões de rosa ou os antúrios apontavam, passei a preferir mantê-los ali, em casa, nos seus ramos.

Foto: Annie Spratt / Unsplash

Com a necessidade de estarmos recolhidos em casa, o consumo deixou de ser uma prática frenética, desnecessária. Tenho sentido muito acompanhar através das redes tantos produtores de flores Brasil e mundo afora sendo obrigados a jogar suas colheitas que, antes embelezariam tantas casas, fora. Por conta do contágio ou simplesmente porque o que se faz urgente agora é outra coisa e não passa pelo campo da Beleza. Também eles terão que repensar seus processos, seus negócios. Eu, começaria pelas embalagens. Combina algo de beleza única ser vestida por plástico? Inclusive, pra onde vai todo esse plástico depois? Opções sustentáveis devem estar na pauta de toda a humanidade, não por frescura, mas por sobrevivência.

Já comentei aqui sobre o Livro do Chá, de Kakuzo Okakura. Continuo me voltando pra ele e teimo em demorar para finalizar porque sempre vou em sua busca no momento certo. Cheguei recentemente a um dos capítulos finais: Flores.

“No tremular cinzento de uma madrugada de primavera, quando pássaros sussuram em misteriosa cadência no arvoredo, você nunca sentiu que eles falam de flores aos companheiros? Para a humanidade, a apreciação das flores foi sem dúvida contemporânea dos poemas de amor. Além da flor, doce em sua inconsciência, fragante em seu silêncio, onde mais seríamos capazes de imaginar o desabrochar de uma alma virgem? Ao oferecer a primeira guirlanda à sua amada, o homem primitivo transcendeu o bruto. Dessa forma, humanizou-se e se alçou acima das rudes necessidades da natureza. Penetrou o reino da arte quando percebeu o sutil uso do inútil.
Na alegria e na tristeza, flores são nossas amigas constantes. Comemos, bebemos, cantamos, dançamos e flertamos com elas. Casamo-nos e batizamos com flores. Não ousamos morrer sem elas…”

Lindo, não? Mas de repente ele nos dá um delicado tapa na cara:

… “É triste, mas não podemos ocultar o fato de que, apesar de nossa camaragem com as flores, não nos alçamos muito acima do bruto…

…Nada é real para nós, exceto a fome; nada é sagrado, exceto nossos próprios desejos. Uns após outros, santuários desabaram diante de nossos olhos, mas um único altar foi para sempre preservado: aquele em que insensamos nosso ídolo supremo – nós mesmos. Nosso deus é grande, e o dinheiro é seu profeta! Devastamos a natureza para oferecer sacrifícios a ele. Gabamo-nos de haver conquistado a matéria e esquecemos que foi ela quem nos escravizou. Quantas atrocidades não cometemos em nome da cultura e do requinte! …”

Cá estamos. Pra onde iremos?

Ler esse capítulo me deu uma grande angústia. Tem me feito refletir sobre tudo, tanto. Sem respostas, apenas sensações sobre novas direções, que rezo para ter tempo de andar por elas. Refletir sobre o real sentido da Vida, agora, é a nossa principal tarefa.

“… Digam-me, meigas flores, lágrimas de estrelas, enquanto se postam no jardim e acenam suas corolas para as abelhas que cantam o orvalho e os raios solares, conhecem acaso o terrível destino que as aguarda? Continuem sonhando, oscilem ao vento e brinquem enquanto podem em meio às suaves brisas do verão. Amanhã, uma mão cruel se fechará em torno de suas gargantas. E serão arrancadas, despedaçadas e levadas de seu tranquilo habitat. A miserável pode ser bastante enganosa. Ela pode lhes dizer que vocês são encantadoras com os dedos ainda úmidos de seu sangue. Isso seria bondade, digam-me? Vocês podem acabar aprisionadas entre os fios de cabelo de uma mulher desalmada, ou metidas na lapela de alguém que não se atreveria a encará-las, fossem vocês humanos. Podem até acabar confinadas num vaso apertado com apenas água estagnada para saciar a louca sede que anuncia o esvair de suas vidas…”

* O Livro do Chá (Ed. Estação Liberdadade) foi escrito em 1906, por Kakuzo Okakura

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