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Bem-estar

ENTRE A SOLIDÃO E A SOLITUDE

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Tenho oráculos de todos os tipos, desde o clássico tarô de Masrselha até o do Pão, criado pela brasileira Magui. Adoro a forma como eles nos apresentam ideias que iluminam questões práticas ou existenciais com as quais estamos mais conectados no momento.

Um que ainda não tinha jogado era o Tarô Zen do Osho. Meu primeiro jogo com ele foi configurando passado, presente e futuro numa linha simples de tempo. Apenas três cartas, uma para cada período. A grande supresa foi a carta do meio referente ao presente. Solitude.

solidao e solitude
Foto: Pawel Nolbert, no Unsplash

A palavra fala da sensação de tranquilidade e de plenitude com o fato de estarmos sós. Em tempos de isolamento social e de perdas de pessoas queridas, há mais solidão, mas também, em algum grau, pode haver mais solitude. Pensei. Talvez não tenhamos, todos, esse controle e oportunidade de transitar entre um estado e outro que podem até parecer similares, mas que na verdade são bem distintos.

Fiquei surpresa e confusa, porque a carta me lembra do contexto delicado no qual vivemos, me faz ver um certo valor nesse distanciamento e também me traz a estranha impressão de que sentir solitude agora é quase um milagre. Afinal, ou você está muito só ou você está cem por cento do seu tempo no meio familiar com pessoas ocupando os mesmos espaços todos os dias, numa convivência que não dá brecha para a individualidade. Ou, independente disso tudo, você pode estar passando por um baque emocional muito grande agora.

Bem, seja como for o nosso caso, a solitude parece ser uma espécie de solidão consentida e curtida, algo que a gente sente naturalmente, de repente, ou que a gente deve buscar e conquistar. Em algum momento ela vem! Acho que a carta apareceu mais para instigar uma investigação que eu compartilho aqui com você.

Para começar, é interessante pensar sobre a diferença entre solidão e solitude. E, mais do que racionalizar sobre a questão, sintonizar, se possível, com o sentimento de solitude pode nutrir nossos dias com possibilidades de movimento, de expansão de percepção.

Solidão é triste e parece encolher a gente, embora a sua presença seja às vezes inevitável e também um caminho de aprendizado, claro.

Solitude não diz respeito aos outros, é sobre nós. Unicamente sobre isso. E este encontro íntimo, esse centramento que a palavra sugere, pode se dar num espaço/tempo imaterial inventado por nós, um mergulho interno, uma conexão com o nosso silêncio de forma amistosa e generosa. O início ou a continuação de uma viagem que nos move, empodera e liberta, depois de um certo tempo.

“Solidão é ausência do outro, solitude é sua própria presença”, escreveu Osho. Estar plenamente em nossa única presença pode ser desafiador, gerar incômodos ou até mesmo uma certa confusão, mas quando sentimos prazer, satisfação e até mesmo uma alegria apaziguadora em instantes respirando em nosso próprio mundo, estamos apenas vivendo em estado de autoamor. Já a solidão é dor.

Lembrei que a mesma carta existe no Orácuo da Mulher Selvagem, de outra brasileira, a Jennifer Perroni, e um dos meus preferidos. A imagem da solitude neste baralho mostra uma mulher nua de costas abraçando o próprio corpo e segurando uma rosa. Há um tom de harmonia nesse conjunto de símbolos à primeira vista, mas é preciso intuir o que ela representa além disso.

Quando estamos nus, nos despimos de toda a vergonha ou de toda máscara, não escondemos nada de nós mesmos. Daí o incômodo inicial que pode nos tirar desse trilho que é tão transformador, a chance de olhar de verdade para a gente e de abraçar tudo aquilo que somos. É preciso coragem e empatia com as nossas próprias dores.

Agora, mais do que nunca, sem aquelas usuais distrações, em que “cada segundo do dia vai sendo ocupado pela presença de tudo, mas uma completa ausência de si”, como escreveu Jennifer no livro que acompanha o oráculo. Para arrematar, a rosa da imagem simboliza o amor, um sentimento que Jennifer define como algo que “deve ser percebido como um estado e nunca como uma ação”, latente independente da presença do outro.

Segundo o teólogo e filósofo alemão Paul Tillich, a linguagem inventou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho, enquanto, por outro lado, solitude significa a glória de estar sozinho. Soube disso assistindo a apresentadora, atriz e escritora Maria Ribeiro, na sua série de vídeos chamada Tudo para o canal Hysteria, num episódio ótimo sobre a solidão (veja aqui).

Se você estiver só ou acompanhado, mas sentindo solidão, tente olhar para isso de frente, procure ajuda, fale e deixe alguém entrar aí para nutrir esse vazio com amor, atenção e esperança. Um empurrão e tanto para, quem sabe, tudo ser transformado em solitude. Por isso, mesmo sendo um processo interno, muitas vezes é preciso uma rede de apoio, um conforto que vem do outro.

Mais uma vez, dei voltas e voltas para chegar no mesmo pensamento que tem feito cada vez mais sentido: bem-estar só vale quando é coletivo. O outro saudável será sempre uma referência para as nossas interiorizações consentidas.

Pensar sobre as diferenças entre solidão e solitude traz luz para um momento como este de distanciamento e de perdas, no qual precisamos dobrar a atenção aos nossos sentimentos e aos dos outros. Entre a solidão inevitável e a solitude possível, fiquem bem! Todes!

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