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UMA CIDADE REAL
QUASE IMAGINÁRIA

por

POR MERCEDES TRISTÃO

Macondo. Não lembro quantos anos tinha quando li Cem Anos de Solidão. Mas lembro como fiquei ao ler a última página: maravilhada. Gabriel García Márquez havia ganhado meu coração pra sempre! Não conseguia parar de pensar nos Buendía e naquela cidade mágica em que tudo era possível. Anos mais tarde, já casada e com filhos, fomos morar em uma casa, em um bairro com árvores altas e anciãs pelas ruas, macaquinho passando pelos fios e um trecho de Mata Atlântica do parque. Numa certa manhã saí pra caminhar, fiz foto do chão coberto pelas flores de Ipê e postei. E me dei conta que morava em Macondo! No meio de uma floresta úmida, perto de tudo, mas escondida. E assim ficou. Amigos passaram a mandar mensagens perguntando quando seriam convidados para visitarem a minha Macondo.

A mudança para essa casa trouxe outras tantas. Estar rodeada por árvores e plantas me reconectou a algo ancestral, a um aconchego sem fim. Além das flores de corte que sempre fiz questão de ter em vários cantos da casa, comecei a ir em busca de diferentes tipos de árvores para ocupar o quintal. Lembro ainda da alegria que senti quando vi a primeira flor do Pessegueiro, que eu mesma plantei, nascer. E com elas aprendi a lidar com a frustração, em respeitar o tempo das coisas, as etapas da vida e que não estamos no controle.

Tomei tanto gosto, que hoje trabalho nesse plano B da vida, a Macondo Flores e Afins, em que procuro unir meus projetos de comunicação – tenho uma agência especializada em moda e cultura – com esse universo verde, que tanto me inspira e instiga. Gosto de juntar pessoas em torno das minhas plantas para oficinas, como a Criança Botânica, que faço ao lado das educadoras do projeto O que Cabe Aqui?, ou a Cerimônia do Chá, com a especialista Erika Kobayashi. Ou ainda fazendo uma Ocupação em espaços que estejam abertos às nossas histórias, como já fizemos no Bona e na DOC Galeria (no fim de outubro na Luiza Perea), em que junto livros, discos, fotografias, pedras, bordados, bolos, pães, vinhos em meio ao meus verdes. Ou ainda pensando nas plantas que podem compor uma loja ou indicando amigos verdes inspiradores para contarem suas histórias, como aconteceu para o Inspire, site da Veilling.

Hoje continuo morando na mesma Macondo, mas em outra casa. Aqui a vida parece passar mais devagar. Os vizinhos se conhecem e se visitam, trocamos ovos, pães, mudas, molhos, frutas e nos reunimos para encontros nas garagens e noitadas de buraco. Os Ipês brancos são os primeiros a anunciar a chegada da Primavera. Em frente de casa tem um enorme Jacarandá. Aqui no quintal plantei outro Pessegueiro, o Pô, que está cheio de frutos. Ao seu lado estão o Jasmim Estrela e a Lágrima de Cristo que cobrem o portão. Têm também a Vinagreira, a Ipoméia, o Araçá, a Dracena de Vênus e a Camélia, que preciso mudar de lugar. Atrás temos a Árvore-Mãe, a minha enorme Mangueira que nessa temporada nos dará muitas mangas. Ela é linda, majestosa e nos protege. Temos o Mamoeiro, que de vez em quando nos oferta com o seu fruto doce, a Ameixeira, a Pitangueira. O Pau-Brasil. Nos vasos, a Mexeriqueira, Figueira, Macieira, Oliveira, Primaveras, Pereira, Parreira, vários cactos, begônias (têm muitas delas na Macondo do Gabo*) e várias roseiras, uma das minhas grandes paixões. Sentir o doce perfume de uma rosa é das coisas mais emocionantes pra mim. Só de lembrar, meus olhos já enchem d’água. E recentemente me dei de presente um pé de Magnólia (inventei uma big band chamada Magnólia Orquestra, só por causa dela!), uma Mednilla Magnífica, um Ipê Amarelo e uma imponente Glicínea.

Entre elas me divido entre o carinho dos meninos, as mesas de almoço com amigos, livros, músicas e o silêncio. Elas me lembram todos os dias que não estamos no controle. E que tudo bem.

Aqui para o CENA CRUA, esse espaço pensado e feito por mulheres que tanto admiro e celebro, vou falar, sobre plantas, livros, música, moda, fotografia. Sobre aquilo que as flores despertam de mais inspirador nisso tudo.

{As fotos são da minha amiga fotógrafa poeta Fernanda Tricoli. O bolo ali de baixo, rosas com amêndoas, foi feito especialmente para a tarde da Cerimônia do Chá pela minha outra amiga Mariana Junqueira, da Suspiro por Bolo}.

* Gabo – apelido de Gabriel García Márquez e nome do meu cachorro

Trilha Sonora para esses momentos de ócio criativo. Ou pra desanuviar enquanto dirige, trabalha, corre de um lado pro outro. Atenção, mulheres incríveis vão invadir os seus ouvidos. Mulheres brasileiras, algumas estrangeiras, artistas guerreiras, muitas amigas, que me inspiram e que me lembram sempre que a arte salva. E a Natureza também. Procurem por elas! Para ouvir a PLAYLIST, clique AQUI!

 + VIDA SLOW E PRODUTIVIDADE 

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2 Comentários

  • Reply
    Lena
    outubro 14, 2019 at 8:56 pm

    Amei <3

    • Reply
      Lila Guimarães
      outubro 15, 2019 at 8:54 am

      Que bom, querida! Obrigada e beijos

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