Comportamento/ Para pensar junto

Trilogia Matheus VK

Semanas depois da festança nacional que deixou saudade e o slogan Volta, Carnaval!, a gente retoma por aqui um ponto de vista de rara alegria, típica do músico Matheus VK. Com a proposta de usar o movimento como um estímulo saudável, sua música tem fundamentos muito mais do que dançantes, assunto do nosso papo meio cabeça! Vem com a gente?

Matheus VK músico

Antes, passeamos um pouco pela biografia do Matheus, para compor um pano de fundo de raízes múltiplas e essenciais. VK nasceu na Bahia, viveu no interior do Pará, passou um tempo em São Luís, foi para a Nova Zelândia e finalmente desembarcou no Rio de Janeiro, sua cidade há mais de quinze anos. Instrumentista, compositor, cantor e psicólogo, em 2013 fechou seu consultório e encarou o desafio de viver só de música! Agora, faz sucesso com o EP Purpurina e sua estética carnavalesca.

músico Matheus VK

1 IDENTIDADE MVK

LILA: Quando começou a tocar, cantar e compor? Veio tudo junto?

MVK: A música sempre esteve dentro da minha casa como forma de reunir as pessoas queridas em volta da mesa da sala. Desde que comecei a brincar com o violão, aos nove anos, já queria aprender músicas que eram “sucesso” lá em casa, como Milton, Gil e Caetano. Essa ideia da música como socialização me ajudou muito na adaptação das cidades e escolas pelas quais eu passei, mas a composição foi fundamental para o meu desenvolvimento como artista. Foi através dela que achei meu lugar de expressão mais íntima.

LILA: E a Psicologia? Por que elegeu esse estudo e o que gostaria de realizar com ele?

MVK: Também por causa dessas mudanças de cidades, desenvolvi meu olhar psicológico até como forma de entender a melhor maneira de me inserir socialmente e de me proteger emocionalmente diante dos novos grupos e situações. Quando fui escolher o que fazer da vida profissionalmente, escolher a Psicologia e a Música foi natural. Fiz as duas faculdades ao mesmo tempo.

LILA: Como as suas duas carreiras se influenciam?

MVK: A psicologia me dá ferramentas para observar e compreender melhor minhas emoções e a música é o meu meio de compartilhar isso. Eu tenho como guia a frase “só faz sentido o que é sentido” e penso que a música é uma forma poderosa de propor e experimentar vivências e sensações.

LILA: Quando deu o pulo do gato e passou a se dedicar só à músca?

MVK: Em uma viagem que fiz pra tocar me senti um pouco desconectado com a minha clínica, e isso me gerou uma sensação de “traição”com meus pacientes. Antes, mesmo passando momentos longe da clínica, eu me mantinha conectado energeticamente. Quando isso acabou, me senti na obrigação de fazer uma escolha.

Matheus VK trilogia

LILA: Sua música tem um DNA essencialmente brasileiro, apesar de outras roupagens e flertes com o eletrônico. Ela é autêntica e pop. Como essa construção – que vem desde o popular voz e violão melódicos aos hits rebolativos – está ligada à sua visão de mundo?

MVK: Os estilos musicais sempre foram todos muito bem-vindos. Como minha formação passou mais pelas canções, as roupagens sempre tiveram uma função de potencializar algum aspecto da canção. Acredito que meus três primeiros discos vinham com uma proposta mais introspectiva. A ideia que eu tinha era propor um mergulho interno, e uma busca pelo autoconhecimento. Com o meu EP Purpurina minha proposta continua sendo um autoconhecimento, mas, dessa vez através do corpo, da descarga e da conciência de potência.

LILA: Sempre achei que você era a “cara” de São Paulo, da farra boêmia que rola em redutos que não denotam a cidade cinza e rígida que meus amigos cariocas pintam. Qual a sua relação com o público daqui?

MVK: Adoro São Paulo. Tenho muitos amigos por aí e gostaria de frequentar mais. Acredito que minha proposta artística teria uma boa receptividade, afinal quem em São Paulo não está interessado em dar férias ao processo mental e sentir mais a própria potência energética?

LILA: Você deveria vir mais vezes! Tem previsão de show em SP?

MVK: Não, mas o plano é chegar em SP logo!

Matheus VK festa

2 TRIÂNGULO DO QUADRIL 

LILA: Do EP Purpurina, você criou o Triângulo do Quadril, uma trilogia com dois sucessos e uma música ainda por ser lançada, certo?

MVK: Sim, La Malemolência foi a primeira a ser lançada e traz a ideia da integração do nosso masculino e feminino, “hay que endurecer sem perder la malemolência”. A segunda foi Pélvis que já traz a proposta de flexibilização dos nós emocionais que a gente carrega na pélvis. Repressão sexual, assuntos relacionados à religião, família, base, dinheiro são todos conteúdos que mobilizam a pélvis. A pélvis é composta por duas rodas de energia que são a base da nossa força vital (Raiz e Hara) a música propõe o fluxo livre dessa energia fundamental. A terceira é o Movimento Rebolático, que questiona a desconexão das pessoas com o próprio corpo, um dos grandes motivos desses posicionamentos radicalmente binários. Quando se desconecta do que se sente, certo e errado passam a ser regidos por autoridades externas e não internas. Por isso o crescimento dos fundamentalistas.

LILA: Quando vi você no programa Amor e Sexo, dançando com Ney Matogrosso, vi um momento de encontro. Ele é um ícone do rebolado no Brasil, assim como o Mick Jagger trabalha e muito a pélvis, uma de suas marcas como performer. Quem foram as suas inspirações na música para criar a Trilogia?

MVK: A minha inspiração para criar foi o psicanalista, autor e pesquisador Alexander Lowen com sua Bioenergética, mas a inspiração pra comunicar, sem dúvida, foi o Ney, aqui no Brasil. O Mick Jagger e o Elvis também são referências de corpos vivos na música, mas toda a questão da maquiagem e dos figurinos do Ney me aproximam mais dele do que de qualquer outro ícone.

LILA: A música Movimento Rebolático é uma espécie de manifesto, é isso?

MVK: Eu não sou uma pessoa de embate. Acho que sou mais eficiente transmitindo alegria do que raiva ou triteza por exemplo, mas não deixo de me sentir péssimo com os rumos do mundo. Com o Movimento Rebolático eu quis pontuar alguns assuntos que me incomodam muito, mas ao mesmo tempo não peder o humor e a leveza, não sei se consegui, mas a proposta é essa.

LILA: Quem você gostaria de ver com a pélvis mais “flexível”?

MVK: Michel Temer e as outras múmias que revisam seus textos. Seria um bom grupo pra começar, quem sabe assim não percebem mais os absurdos que andam falando.

LILA: Antes da Trilogia, você gostava de compor músicas mais românticas e delicadas. Em uma de nossas conversas, você tocou num ponto que achei interessante, sobre o tempo que temos atualmente para a contemplação. Que hoje em dia percebe a catarse e o movimento como caminhos mais eficientes para acessar a sensibilidade das pessoas. Me conta mais sobre essa ideia?

MVK: Nos trabalhos anteriores eu propunha um mergulho interno que exigia um estado mais contemplativo, um pouco para silenciar os estímulos, para poder estar dentro e fora ao mesmo tempo, em um estado mais intenso de presença, que a contemplação ajuda a alcançar. Depois, percebi que eu precisava mudar minha estratégia de comunicação com o público, diante de uma realidade social sob o signo do hiperestímulo. Agora, tento de uma forma objetiva propor movimento na direção da saúde. Acredito que se uma pessoa está em contato com ela mesma, tem mais campo para se perceber e sacar suas particularidades. Isso, na minha opinião, gera saúde.

Matheus VK carnaval

3 A CARNAVALIZAÇÃO DO COTIDIANO 

LILA: O valor da catarse, como falamos anteriormente, me lembra Antonin Artaud, quando dizia, em outras palavras, que o homem só poderia ser atingido por uma arte cruel, uma poesia anárquica que colocasse em questão todas as relações entre as formas e suas significações. Ele, inclusive, tem uma frase que cai hoje como uma luva quando pensamos no sucesso de músicas dançantes com discursos fortes: “No estado de degenerescência em que nos encontramos, é através da pele que faremos a metafísica entrar nos espíritos”. Você acredita nos espetáculos como meios para transformar energias e padrões?

MVK: Eu acredito muito nisso! Uma das características mais fortes dos espetáculos, é o fato de um grupo estar se relacionando pelo mesmo estímulo e compartilhando as próprias emoções. Isso potencializa a experiência. Quando potencializa a experiência e você tem pares a sua volta que de alguma maneira legitimam o que você está sentindo, você se permite ir mais longe. Numa relação de arte individual, de uma obra de arte ou de uma música com um único indivíduo, ele vai até onde as amarras dele permitem que ele vá conscientemente, mas em grupo, às vezes, você consegue chegar mais longe. Então, como eu estou propondo uma atmosfera no meu show de libertação, de coragem, de permissão plena, de a gente ser quem a gente é, quando você vê do seu lado uma pessoa brilhando com a própria luz e você tá quase lá, você simplesmente se deixa ir e ao invés de ser um grupo que está sendo manipulado, é um grupo onde os indivíduos estão se potencializando através de um ambiente que permite que eles sejam quem quer que eles sejam. Que eles sejam aceitos da maneira que são. Isso é quase utópico, mas na verdade quando se trata de catarse, é o que acontece! Todo mundo se deixa derramar na pista de dança e o resultado disso é um ambiente com menos confusão interna, e aí você consegue chegar no lugar da contemplação e achar o seu caminho.

Matheus VK pelvis

Fotos: Victor Affaro

Maquiagem: Malu von Krüger

LILA: Acabamos de viver um Carnaval de rua potente em todo o Brasil, com pessoas se amando, dançando, colorindo e rebolando. Homens vestidos de mulher, fantasias e folia. Acha que o valor cultural do feriado e seu comportamento anárquico podem continuar nos influenciando durante o ano sem perdermos a noção da produtividade?

MVK: O Carnaval de rua tem umas características que se a gente leva pra vida, pode ser muito bom até para quem está perto da gente. Eu considero o inverso do que de um modo geral as pessoas pensam sobre fantasia. Acho que quando a pessoa está fantasiada, aí é que ela se permite ser e fazer o que realmente está sentindo e querendo expressar. A nossa vida é tão hostil no cotidiano, que colocar a cara na rua, realmente com liberdade e profundidade, é muito difícil porque as pessoas estão muito reativas. Então você tem medo de ser quem você é e fazer o que você quer e ser ferido na sua essência. No Carnaval, como existe esse ambiente mais lúdico, onde a alegria é a maior das emoções, até questões mais pesadas quando colocadas nesse ambiente, viram fantasia, geram uma sensação de que está tudo bem. Outra característica maravilhosa do Carnaval é a organização. As pessoas se organizam com antecedência, separam as fantasias de cada dia, fazem questão de estar junto com quem gostam. Muitas vezes a gente deixa se afastar de quem ama também por conta de trabalho e de cotidiano. E, não tem preguiça né? No Carnaval você acorda às 6h da manhã (é verdade, no Rio de Janeiro alguns blocos começam bem cedo) para estar na rua às 7:30h. Você dorme cedo, está disposto! Por que não a gente levar isso para o nosso cotidiano? Acordar cedo, se programar, buscar estar com pessoas que você admira e gosta, e levar isso para o seu dia a dia, para o cotidiano no seu trabalho. Esse é um tipo de carnavalização do cotidiano que eu adoraria que acontecesse.

LILA: Por fim, por que acha que a rigidez, a “caretice” e os preconceitos no país do Carnaval estão tão aflorados?

MVK: Penso que a energia, de um modo geral, trabalha em polaridade. Então, quanto mais se conquista espaço e voz daqueles menos representados na sociedade, mais o oposto disso vai surgir como reação a essa conquista. E eu acho que o Brasil está num momento de extremos e, um momento de extremos é muito ambíguo porque você fica feliz por conquistas representativas em certas áreas, como o lugar da mulher ou a discussão sobre a questão do gênero. Acho que isso é uma vitória que não tem volta, mas a contrapartida disso é que aqueles que se apoiavam na “autoridade externa”, nesse conceito mais antigo e rígido, desses lugares da sociedade, essas pessoas estão morrendo de medo. Quando você tira a base de uma pessoa, o lugar onde ela se apoia, realmente dá medo. Por isso, é natural quando valores estruturais e arraigados da sociedade são questionados, a própria sociedade reaja com medo de perder aquele pouco de certeza que tinha sobre a vida.

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