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PÁGINAS MATINAIS E OUTROS SEGREDOS PARA ACESSAR A CRIATIVIDADE

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“Muito comumente é a audácia que leva um artista até o palco e nāo seu talento” é o que diz Julia Cameron em seu livro bestseller O Caminho do Artista. Um livro/curso dedicado a desbloquear e recuperar o artista que existe em cada um de nós. Sua premissa básica é de que a criatividade é uma experiência espiritual a qual todos temos acesso, mas que por conta de bloqueios que sofremos na vida nos desconectamos da fonte que nutre toda criação e senso de potência criativa.

Segundo a autora, ser criativo e ser artista dependem do simples ato de nutrir. Nutrir talentos, nutrir curiosidades, nutrir vontades, nutrir tentativas. Enfim, nutrir com gentileza e carinho aquela parte da gente que busca sua expressão no mundo do simbólico e do imagético. Achei o tema especialmente conectado com o CENA CRUA e trouxe ele hoje como mais uma ferramenta de autoconhecimento em prol do mundo.

Foto: Laurianne Huggins, no Unsplash

O Caminho do Artista é um processo de doze semanas. A cada semana, um novo tema e novos exercícios são propostos. É um caminho com etapas bem definidas e guiadas por Julia. Nele, duas práticas são sine qua non para a recuperação do nosso artista interior

1.Páginas matinais: As páginas matinais pressupõem que todo dia de manhã, antes de começar seu dia, você sente e escreva três páginas completas de um caderno. Não precisa ser nada interessante. Só precisa ser a escrita de tudo o que está na sua mente naquele momento. Por meio das páginas matinais você começa a dar voz às suas vontades que ficaram reprimidas por tanto tempo. Nelas, o seu artista pode se expressar. Lá ficam impressas as verdades de como se sente, do que precisa, de como precisa ser nutrido. Com o passar do tempo, isso se torna o nosso mapa da mina e podemos navegar no processo de deixar florescer este lado nosso tão frágil e, muitas vezes, negligenciado. Nas páginas matinais a gente deixa as nossas desesperanças e também as nossas intenções para o dia que começa. Elas são nosso passo diário em direção a uma vida mais abundante e em sincronia com o fluxo da criação, verbo que, segundo Cameron, é intrinsicamente divino e espiritual.  

2.Dates com seu artista: Toda semana você vai levar o seu artista interior para passear. Pode ser uma caminhada na praia, uma ida ao cinema, a uma exposição, uma ida à loja de produtos artísticos ou um passeio pelo seu bairro da infância. A única regra destes dates é que você não pode levar mais ninguém com você. Eles são um momento que você dedica na sua semana para o seu artista e mais ninguém. Como uma criança que quer tempo com seu pai ou mãe, o nosso artista precisa de toda atenção do mundo para se sentir visto, amado e fortalecido. 

Ambas as práticas podem parecer simples. Na realidade, elas são um compromisso e tanto e têm um potencial muito mais revolucionário do que conseguimos dimensionar até começarmos a executá-las com rigor. Eu mesma estou escrevendo as minhas páginas matinais há cinco semanas e quando não as escrevo por alguma casualidade, começo meu dia com uma certa irritação e impaciência. Quando as escrevo é como se todo canto de incômodo fosse amolecido e dissolvido dentro do mar de palavras que preenchem meu caderno.

Foto: Toa Heftiba, no Unsplash

Este processo em mim tem despertado um senso de grande liberdade. Liberdade para eu me dedicar a mergulhar em uma imagem que há muito tempo minha artista traz para mim: a de dançar. Percebo que é como se houvesse um fluido que habita o nosso corpo, mente e alma e que ele é a nossa criatividade. No geral, esse fluido fica estagnado lá dentro, esperando pra ser liberado e para dar movimento e vida para tanta coisa que vive em nós. A beleza de tudo é que quando essas “coisas” começam a sair, mesmo que timidamente, elas vão ganhando força e quanto mais força elas ganham mais confiança a gente sente em mergulhar naquilo que nos está sendo trazido e proposto. É aí que, como diz Cameron, passamos a entrar em sinergia com o fluxo divino da criação e o Universo começa a trabalhar para nos propiciar aquilo que o nosso artista precisa para ser e existir neste mundo. 

Fica aqui a dica de dois dos meus exercícios favoritos do livro, pra quem quiser experimentar:

1.Vidas Imaginárias: Se você tivesse cinco outras vidas pra viver, o que você faria em cada uma delas? Talvez fosse um piloto de avião, uma enfermeira, um monge, neurocientista, pintora, marceneiro, joalheira, um cantor sertanejo, um escultor, psicólogo, dentista, velejador, bailarina. O que quer que te ocorra, escreva! Não pense muito no exercício. O objetivo destas vidas é se divertir com elas, talvez mais do que nos divertimos com esta de agora. Olhe pra sua lista e escolha uma vida. E viva esta vida esta semana. Por exemplo, se você gostaria de ser cantor sertanejo, acha que poderia tocar violão? Se sonha em ser monge, já se permitiu ir a um retiro?

2.Viagem no Tempo: Descreva você aos 80 anos. Depois dos 50, o que você gostaria de fazer? Seja específico. Agora, escreva uma carta do seu eu aos 80 anos pra você hoje. O que diria a você mesmo? Quais os seus interesses que o seu eu incentivaria que você perseguisse? Quais os sonhos que ele encorajaria?

Como disse, brilhantemente, a dançarina que mudou os rumos da dança para sempre, Martha Graham, “há uma vitalidade, uma força vital, uma energia, um estímulo que se traduz em você pelo seu ato, porque só há uma de você o tempo todo; essa expressão é única. Se você a detém, ela nunca existirá por nenhum outro meio e se perderá”. 

Nossa criatividade é particular e a sua expressão é única e importante. Se não nos expressamos, estaremos privando o mundo de desfrutar dela, seja na forma que for: uma refeição, um poema, um belo jardim, uma jóia bem feita. Por isso, arrume um tempo para encontrar o seu artista interior e com toda a riqueza que pode vir deste encontro. Comece hoje!

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