Beleza Crua

ÓLEOS ESSENCIAIS E COSMÉTICOS NATURAIS FEITOS EM CASA

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Foto por Sarah Gualtieri no Unsplash

Tenho essa fantasia de conseguir encontrar o cosmético perfeito para o meu rosto. Aquele que, sem agredir minha pele e comprometer sua saúde no futuro, elimine/melhore o melasma e as outras manchinhas que tenho, hidrate e mantenha o rosto luminoso. Se atenuar algumas linhas de expressão, melhor ainda. Talvez estimular um pouco de colágeno, por que não? Este cosmético, especialmente no quesito manchas, sinto, no meu caso pelo menos, depois de anos e testes a fio, não existe. E se eu mesma criasse essa fórmula de sucesso dermatológico? Voilà, foi essa promessa de felicidade que vi se concretizar ao conhecer a Aroma Zone. Numa viagem super recente (acabei de voltar) à França, descobri essa loja que vende praticamente tudo o que você possa imaginar em termos de utensílios e matéria prima natural para criar o próprio cosmético (tudo, de ingrediente, é orgânico certificado ou com selo de agricultura sustentável). Começou online e abriu sua primeira loja, giga, de 500 metros quadrados, há cerca de cinco anos, em Paris. O endereço que visitei foi o de Lyon. Fiquei tão empolgada com esse novo mundo de possibilidades em termos cosméticos, que quis dividir. 

Não é de hoje que me interesso pelos cosméticos tipo faça você mesma, ou DIY (do it yourself). Quando era editora de beleza da Elle, chegamos a publicar uma reportagem sobre o assunto, há cerca de dois anos. Mas era apenas uma observadora e confesso que achava a ideia um pouco difícil de ser posta em prática. Como conseguir os mesmos resultados que um farmacêutico de uma marca de luxo, que investiu anos em pesquisa, ou que um dermatologista que estudou tanto e conhece as melhores combinações? Como acertar a proporção certa de cada ingrediente? Acontece que comecei a me incomodar de não saber como essa combinação de tantos componentes químicos e sintéticos (estabilizantes, conservantes, ativos criados em laboratório) ia se comportar na minha pele tanto a curto quanto a longo prazo. Uma vez, ouvi a Cris Dios, tricologista e dona do Laces que respeito muito, comentar que percebeu a pele do rosto manchar depois de usar uma base de uma marca supercara, de luxo. Deu ruim com algum ativo ali, acontece, mas a gente às vezes nem pensa que a maquiagem vai causar um problema desses. Ingredientes naturais não são totalmente inócuos, podem também dar alergias, mas usar a ciência vinda de um estudo milenar, a partir dos ativos naturais, e não sintetizados, numa mistura que eu mesma posso fazer, com menos substâncias que possam dar efeitos colaterais, me pareceu um bom jeito de não estragar o que está bom e melhorar o que precisa ser melhorado. Na matemática final, me parece que a pele, sendo tratada de maneira menos agressiva, tem mais chances de ir se renovando e se revelando mais bonita. 

Para a minha receita de cosmético feito em casa, os primeiros ingredientes que procurei foram os óleos essenciais. Para mim, representam o melhor dos mundos: são aromaterapêuticos, perfumados e ainda têm ativos concentrados e potentes extraídos das plantas para tratar várias questões cutâneas (e problemas de saúde também, mas aqui estou focando só na estética e no ritual de bem estar). Comprei um óleo de lavanda vraie (havia seis tipos diferentes, me indicaram este como o de lavanda clássico) porque é meu óleo preferido, acalma, amo o cheiro e ainda é cicatrizante e renovador da pele. Depois, acrescentei o óleo de laranja doce, que descobri ser o óleo da alegria. E para terminar, o patchouli, por conta do aroma mesmo. Para as manchas, a atendente da loja me indicou um óleo vegetal de flor de lírio. Não é muito comum aqui, mas fui na dica dela. Misturei com um pouco de óleo de rosa mosqueta e com óleo de cenoura, que, segundo a vendedora, garantia uma luminosidade. Aí bateu a dúvida: sabendo que os óleos essenciais precisam ser diluídos num óleo vegetal, como saber a quantidade de gotas de óleos essenciais para os 30 ml dessa fórmula que eu estava criando com (a maior parte de) lírio, um pouco de rosa mosqueta e outro pouco de cenoura? Sei que os óleos vegetais não costumam apresentar um grande perigo para a pele, mas no rótulo do óleo de patchouli havia um aviso de que, se ingerido ou inalado, poderia ser fatal!

PROPORÇÃO

Sem saber também quantas gotas de cada óleo eu poderia usar dentro desse mix que estava inventando, resolvi, já aqui no Brasil, recorrer a um especialista para tirar esta dúvida e poder dar a dica certa para os interessados deste blog. Aromaterapeuta, consultora de beleza natural e especialista em produção de conteúdo sobre o assunto nas redes, Karina Viega já, logo de cara, esclareceu essa questão que aflige tanta gente: o máximo que se pode usar sem a consulta de um especialista é a porcentagem de 5% de óleo essencial numa fórmula, o que equivale a uma gota do dosador do óleo essencial por ml de óleo vegetal. Isso quer dizer, por exemplo, que em 30 ml de óleo ou de outro carreador (o líquido que carrega o óleo essencial) você pode colocar, no máximo, 30 gotas de óleo essencial. “Nunca sabemos qual será a resposta da nossa pele até usar o ativo. Por isso, recomendo começar com uma concentração de 2% ou 2,5% (o equivalente a 10 ou 15 gotas de óleo essencial em 30 ml de óleo vegetal). Veja como a sua pele reage e, se achar necessário, vá adicionando mais óleo essencial aos poucos”, recomenda Karina. Sobre a toxicidade dos óleos essenciais – o meu medo, no caso do patchouli – ela disse que é muito difícil isso acontecer, a não ser no caso de ingestão ou inalação de uma quantidade muito grande, como o equivalente a vários vidrinhos. “Lembre-se de que, em um vidrinho de 10 ml, há uma concentração de muitas e muitas plantas. Por isso uma única gota pode ser tão potente. A ideia, no entanto, não é amedrontar as pessoas. Afinal, não é só o óleo essencial que pode causar alergia: tudo pode fazer mal, dar alergia, caso de uma tintura de cabelo ou mesmo de um cosmético industrializado. O que aconselho é: use com respeito. Respeite o seu óleo essencial e faças suas experimentações.” Outra informação que me deixou tranquila em relação aos óleos essenciais é que eles podem ser misturados entre si porque, segundo Karina, eles têm muitas famílias químicas em comum. Isso quer dizer que, ao misturar dois ou três óleos essenciais, não vai ocorrer (ou é muito difícil que ocorra) uma reação química indesejável para a pele. Na verdade, muito pelo contrário: a ideia é ir testando para encontrar a melhor sinergia entre eles.

FOTOSSENSIBILIDADE

É importante lembrar que há óleos essenciais que podem provocar, quando inalados, uma queda ou um aumento da pressão arterial, por isso, sempre dê um google para saber mais sobre o seu óleo. Os sites de marcas distribuidoras de óleos essenciais, como a Lazlo (o facebook deles também é bem informativo) e a by Sâmia, são duas fontes sugeridas por Karina para pegar informações seguras, além de jogar na busca do Pubmed o nome do óleo essencial para ver o que vem de pesquisa (site é referência em pesquisas médicas e é em inglês). Outro alerta importante: óleos cítricos são fotossensibilizantes, portanto, só podem ser usados à noite (geralmente fotossensibilizam a pele por entre 6 e 12 horas depois de aplicados, como laranja doce, limão, bergamota, etc). Grávidas e lactantes têm que consultar um especialista antes de usar óleos essenciais, porque alguns, como o de jasmim, podem ajudar na hora do parto mas provocar contrações antes da hora também.

AROMATERAPIA

Feitas as ponderações, me senti bem segura para misturar os meus óleos respeitando o limite das 30 gotas por 30 ml, sabendo que não aconteceria nenhuma reação química indesejada ao mesclar o patchouli com a laranja doce e a lavanda e ainda recebendo a grata notícia de que fiz, intuitivamente, uma combinação de aromas antidepressiva e ótima para a regulação dos hormônios femininos. Como é um óleo noturno, além de deixar minha pele mais bonita, estou dormindo mais calma e feliz! 

Além do óleo noturno, me empolguei com uma possibilidade de criar um creme clareador e iluminador diurno. Tudo começou com um concentrado de uma planta clareadora vinda da Rússia (no Brasil chama larício, segundo a tradução do francês, mélèze) e que não podia ser diluído em óleo. Isso é algo também importante de se notar: tem ativo que se comporta bem em óleo, tem ativo que não. E tem aindao os que perdem o efeito na água, caso do próprio óleo essencial, quando o objetivo não é exalar o aroma, mas penetrar suas propriedades na pele. Fiquei ainda mais animada quando vi que poderia criar meu próprio cheiro do creme diurno (tirando a laranja doce, que é fotossensibilizante) com os óleos que já havia comprado e ainda colocar pó de mica pra dar um efeito luminoso AND um tonalizante para ter efeito de base! Mas aí deixei para fazer essa mistura no Brasil e checar algumas informações com quem é expert em fazer cosméticos em casa.

VALIDADE

Criadora da Balmish (a antiga It Balm) há quatro anos, Lídia Gomes começou sua marca de cosméticos veganos e naturais dentro da própria cozinha, quando resolveu fazer seus próprios produtos. Sua primeira criação foi um lip balm à base de manteiga de karitê e outra manteigas vegetais e corante alimentício. Logo viu que o corante alimentício diminuía o prazo de validade do lip balm e retirou isso da fórmula. O que leva à sua primeira dica importante: para saber qual será a validade do cosmético que você criou, basta olhar a validade de cada ingrediente que você colocou nele. E aí considere a validade menor como o prazo de validade dele (afinal, se um ativo vencer, o produto já não é mais o mesmo). Outro alerta importante é sobre o risco de contaminação do seu creme. Evite fórmulas feitas em ambiente aquoso, já que é na água que há mais risco de acontecer a contaminação de bactérias, fungos e outros organismos (desodorantes e máscaras faciais, por exemplo. Legal fazer, mas cheque como armazenar e por quanto tempo). Fora isso, é só pesquisar boas receitas, tomar os cuidados necessários com a procedência dessas fórmulas, os ingredientes duvidosos  (veja se a receita foi publicada em lugares confiáveis, o que falaram sobre ela, se há relato de riscos envolvidos) e se deleitar com a experiência. “Fazer o cosmético em casa te traz uma independência maior, você fica livre de produtos sintéticos, cheios de química. E consegue criar algo específico pra você”, acredita Lídia. Tive a mesma sensação. 

E vocês, já fizeram cosméticos em casa? Sinto falta de receitas confiáveis na web, se alguém puder dividir as suas, agradecemos! 

 

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2 Comentários

  • Reply
    Fernanda
    outubro 11, 2019 at 8:48 pm

    Amei o texto! Parabéns! O que me ajudou a aprender a proporção foi o seguinte: 22 gotas do óleo essencial equivale a 1 mL (isso para quase qualquer bico dosador de óleo essencial), portanto para proporção de p.ex. 5% de óleo essencial em 30mL de óleo vegetal, você precisa de 1,5mL de óleo essencial, que equivale então a 33 gotas de oe.

    • Reply
      Lila Guimarães
      outubro 15, 2019 at 8:56 am

      Oi Fernanda! Que ótimo! Obrigada por dividir por aqui, adoramos esse assunto e seguimos falando sobre ele. Mande sugestões? Beijos

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