Cenas pelo mundo/ Viagens

O OLHAR DO CAMINHANTE E O TEMPO DO CAMINHAR

Um checklist completo para dias na Patagônia inclui proteção para o sol e o frio, roupas especiais com tecido tecnológico e principalmente um par de botas resistentes. O ideal é que elas sejam previamente amaciadas já garantindo o conforto necessário para o encontro com a essência de uma estadia no Parque Nacional Torres del Paine: o caminhar.

 

 

Entre subidas, descidas, momentos de descanso e de contemplação, aos poucos, se cria uma relação mais íntima com a paisagem que à primeira vista parece pintura ou só desafio. Como num processo de conquista, nesse percurso, o tempo é outro. É um personagem que faz o cenário descortinar para o visitante. É também quem vai nos familiarizando com o clima patagônico muitas vezes hostil e imprevisível. O tempo, enfim, é quem nos dá passagem a uma profunda e marcante imersão naquela natureza.

Torres del Paine estimula o caminhante e convida por todo lado. Assim foram os dias na companhia do navegador e escritor Amyr Klink nesta terceira edição do Terramundi Creators.

“É um prazer caminhar num lugar de ar frio em que a paisagem vai se alternando. A mesma caminhada pode ser completamente diferente. Num dia é uma experiência impressionante de frio, chuva e vento na cara. No outro, o contrário. A mesma experiência que começa num dia terrível, úmido e molhado, termina com você seco e feliz sentado em cima de uma pedra observando a paisagem”, relata Amyr Klink.

 

Amyr Klink na floresta próxima ao Acampamento dos Chilenos

 

No alto dos seus 62 anos e uma forma física de invejar, Amyr durante a viagem foi um dos caminhantes mais ágeis, sempre à frente como se liderasse uma expedição em alto-mar. Não é de hoje toda essa força e fôlego. Seu desempenho focado e exemplar é resultado de uma vida inteira dedicada a explorar o mundo, inevitavelmente, desafiando a natureza e seus próprios limites.

Muito antes de embarcar sozinho na travessia a remo do Atlântico, entre a África e o Brasil em 1984, feito que o consagrou como um herói, suas manhãs eram dedicadas a treinos como um atleta ainda na época da faculdade de economia. O remo driblou o tédio da vida acadêmica. Mais do que isso, sem saber, a atividade acabou formando sua pujança e inteligência físicas capazes de aguentar os cem dias da viagem que estariam por vir.

 

Amyr num dos mirantes do Parque Torres del Paine

 

“A experiência de caminhar me agrada bastante. Eu sou uma espécie de Joãozinho Caminhante do mar. A gente gosta de chegar num lugar remoto com o barco, parar numa base e aí reconhecer aos poucos os lugares em volta. Isso a gente faz com um pequeno barquinho, às vezes, uma canoinha, um botinho ou caminhando.”

“Eu conheço as trilhas daqui e algumas são íngremes, difíceis. Têm subidas e descidas o tempo todo, mas é um processo de sofrimento e recompensa muito interessante, porque no final ele é sempre gratificante.”

 

Muitas trilhas da região são marcadas pela presença das árvores prateadas, resultado de um incêndio devastador em 2011

 

“E eu acho que esse olhar do caminhante é um olhar que vai absorvendo a paisagem aos poucos.”

 

 

Rio Paine e Cordilheira Paine

 

“Fui descobrindo que quando você se torna um caminhante, quando você está se deslocando numa velocidade baixa, o tempo tem outra escala. Hoje foi um bom dia, amanhã pode ser melhor, e de repente a sucessão dos dias e o tempo andam numa escala diferente, numa velocidade diferente. E, isso é o que acontece no mar, a gente não tem como cortar caminho, não tem como saltar degraus, não tem como pular uma semana. Você tem que continuar seguindo, caminhando cada dia, todas as suas horas, e aos poucos você vai incorporando essa experiência do tempo que, olhando de longe ou do vidro de um veículo rápido parece terrível quando não passa, mas no olhar do caminhante ela se torna uma experiência profunda e marcante. E é exatamente por isso que os caminhantes do passado, os tropeiros, os caras que gostam de fazer trekking têm uma visão da geografia muito mais precisa. Eu sinto que esse prazer hoje está renascendo. O prazer de olhar com mais profundidade a paisagem, de sentir a passagem do tempo, de uma maneira que deixa uma impressão que você carrega”, arremata Amyr.

Seja o caminhante ou o navegador, existe algo de urgente naqueles que enfrentam distâncias para ver o mundo, como Amyr resume bem numa passagem do seu primeiro livro, Cem Dias Entre Céu e Mar: “… para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer”.

Fotos: Victor Affaro

Vejam mais sobre a viagem com Amyr Klink no site do projeto Terramundi Creators

Conheçam o EcoCamp Patagônia, um hotel sustentável aos pés das Torres del Paine

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