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O FEMININO NO MEU CARNAVAL UPCYCLED

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Carnaval é para mexer corpo e espírito. Na pele de quem sua pelas ruas tem paixão e tem também discurso e mensagem – sobre isso eu escrevi recentemente no Hysteria, no texto com o título Isso não é uma fantasia de Carnaval (leia aqui). O tema já rendeu muitos outros posts aqui no CENA CRUA e vai ser sempre um portal de entendimento. No meio da loucura, fantasiados ou nus, sempre deixamos escapar algo sobre o momento político e social em que vivemos.

Para este ano, quis me conectar ainda mais com o feminino. Eu e a estilista Heloisa Faria, na mesma sintonia, resolvemos colocar nas ruas uma coleção de roupas e acessórios que evocam energias e poderes inspirados em Deusas mitológicas. A ideia é temperar o Carnaval com outras facetas femininas e louvar o nosso sagrado na maior festa da carne.

Helo e eu

Fizemos uma pesquisa de matéria-prima no acervo da Helo e de lá saíram tecidos e berloques que são a base dos 5 looks escolhidos como os principais da coleção. No processo de upcycling encontramos principalmente lycras, tules e cordas. Outra ideia essencial era criar peças versáteis, multifuncionais e que pudessem ser usadas o ano todo. As saias viram capas ou vestidos, as mangas e kimonos são coringas para brilhar no styling, e os macacões de tela podem ser o ponto de partida para mil looks diferentes no mesmo Carnaval.

Com a Casa Medusa desenvolvemos um acessório para cada arquétipo e convidamos mulheres que admiramos para as fotos da campanha. Mas, além das roupas e das imagens, tem muita história, muito caldo que a gente viu no encontro dessas Deusas reais com as que estudamos das diferentes mitologias.

Miranda Luz, Deusa do Sol

Miranda Luz é a força feminina do auto-amor, a Deusa do Sol que evoca o poder pessoal, a luz interior e única de cada mulher. A modelo e stylist mineira, sagitarianíssima, brilha na moda desde que chegou em São Paulo, há um ano exatamente no dia 02 de fereveriro, dia de Iyemanjá.

As entidades femininas de origem africana são sua maior conexão com o mundo espiritual, mas é com Oxum que ela tem uma relação ainda mais íntima. “Me identifico com a imagem da mulher que segura numa mão um punhal e na outra um espelho. Estamos sempre prontas para a luta, mas não deixamos de olhar para dentro, de saber o que queremos. Desfilando ou em qualquer outra frente de trabalho procuro sempre usar a minha essência como força expressiva, porque acredito que essa é a minha missão. Minha imagem não se trata só de beleza, mas de uma força por trás, uma política por trás. Quero ser referência de fala sobre empoderamento pessoal e quero que as pessoas descubram a alegria do autoconhecimento”, diz Miranda, que é também conhecida por ser a primeira trans a assinar um desfile como stylist no SPFW.

Oxum, Afrodite e Amaterasu Omi Kami foram algumas das Deusas que inspiraram esse look amarelo e dourado.

Rafaela Ferreira, Mulher Cíclica

Rafaela Ferreira é a Deusa do Céu, representando o arquétipo da Mulher Cíclica, simbolizada pelo ícone e as cores da Lua, a quem a atriz e produtora carioca reverencia a cada fase do mês. Rafaela, intuitiva e aquariana, só corta os cabelos na lua certa, tem uma mandala lunar para estudar suas marés internas e é mutante por natureza, como Morgana, a Deusa celta Fada dos Ritmos. Você pode encontrar Rafa vivendo uma personagem jovem e doce ou na pele de uma mulher madura e altiva. Assim ela é o que acredita – todas em uma!

No sincretismo entre a Umbanda e o Budismo, ela encontra força e religação com o Divino. O poder desse arquétipo, que ela veste com propriedade, está essencialmente em respeitar seus ciclos para tocar a totalidade. “Faço minhas esolhas baseadas no que sinto. Observo minhas emoções, elas são como um GPS, e assim transformo tudo em informação para agir da forma mais sincera e acertiva”, diz Rafa, que está no ar com As Aventuras de Poliana, no SBT, ensaia duas peças para estrear ainda este ano e escreve o seu primeiro livro.

Lilith, Moragana e Mulher Mutante, foram as inspirações para esse look cinza e prateado.

Helo, Deusa do Amor Divino

Helo personifica a Deusa do Amor Divino, aquela que apazigua, acolhe e perdoa. O sagrado coração no peito reforça o poder de um amor maternal que regenera o outro, inspirando transformação e elevação espiritual. A estilista paulistana, que assina a coleção comigo, é sagitariana, mãe de duas gêmeas e de muitos projetos na moda. É na criação a sua forma mais palpável de sentir a energia abundante da vida.

Deusas de todas as mitologias estão no seu imaginário e é da jornada de cada uma que ela tira sua inspiração. Adepta dos oráculos e fã do misticismo, Helo sente que no seu dia a dia, sempre cheio de gente, tem a chance de expandir mais e mais seu potencial de amar. “Gosto de gente! Meu mundo interior é cheio de pessoas que passaram pela minha vida e são elas as minhas musas. É para elas que eu desenho roupas. Para que elas se sintam lindas, interessantes e abraçadas”, diz Helo, que batizou de “O que nos move é love” uma de suas coleções mais recentes, desfilada na Casa de Criadores.

Ísis, Virgem Maria e Pachamama são as Deusas por trás desse look rosa e nude. 

Heloá, Mulher Selvagem

Héloa é a Mulher Selvagem, um arquétipo feminino que é puro movimento, instinto e intensidade. Essa Deusa, representada pela aquariana, cantora e multiartista sergipana, é a imagem perfeita de uma mulher que cultiva suas raízes e uma íntima ligação com a natureza. Afroindígena e candomblecista, Héloa se diz uma mulher religiosa e é adepta de rituais de limpeza e de momentos de resguardo, para que do silêncio venha a sua escuta espiritual.

“Meu sagrado está muito ligado à ancestralidade e ao entendimento da minha força em consonância com a força das águas, do vento, dos raios, das matas. Meu trabalho artistíco eleva essas forças e fala da importância dessa conexão para viver num mundo tão concreto e tão duro. Sou muito ligada às minhas tradições e origens africanas e indígenas. É com elas que reaprendo a viver”, diz Héloa, que também é documentarista e assina a direção do filme “Eu, Oxum”.

Baba Yaga e Brígida foram as Deusas que conectamos com esse look preto e dourado. 

Eu, Deusa do Prazer Orgástico

Eu mergulhei no arquétipo da Deusa do Prazer Orgástico, o poder que ativa energias criadoras, revolucionárias e subversivas. Simbolizo o fogo e a paixão em realizar tudo no aqui e agora. Afinal, sentir satisfação no que a vida pode oferecer é também uma forma de alcançar o êxtase espiritual.

Através da minha sexualidade me alinho com poderes e vibrações que me impulsionam a conquistar o que desejo. Sinto uma vitalidade muito intensa desde sempre no meu corpo. Ele é pulsante e abre os meus caminhos na vida pessoal e no trabalho. No entanto, procuro o equilíbrio entre o sagrado e o profano, porque é nesse jogo que aprendo e me desenvolvo

Shakti, Hator e Freia foram as Deusas que inspiraram esse look vermelho e roxo.

Sobre as Deusas, indicamos as leituras do livro que vem com o Oráculo das Deusas e do que acompanha o Oráculo da Mulher Selvagem. Existem ainda outras fontes, mas os oráculos são mais uma forma de mergulhar nos ensinamentos de cada uma delas com mais profundidade.

Mais looks possíveis com as peças da nossa coleção:

No fim, o nosso desejo é que mulheres, homens e todxs evoquem suas Deusas e levam todas essas energias para o fervo!


Foto @victoraffaro / make @koichisonoda / acessórios @medusacasa / glitter @ecoglitteroficial

+ O CARNAVAL DE TODOS OS CORPOS

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