Para pensar junto

O CARNAVAL DE TODOS OS CORPOS

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Acabou o Carnaval e senti vontade de escrever esse post sob um ponto de vista muito pessoal. Sei que a folia dos últimos dias bateu diferente em cada um e que ela sempre terá significados únicos. Há quem deposite no Carnaval a fé de que todo mal será queimado com o poder do povo pulando junto em sincronia. Outros condenam a festa ou apenas preferem não ter nenhuma relação com ela. Eu, por exemplo, acho fundamental o encontro nas ruas para cantar, dançar e batucar nossas tradições. Vejo nisso uma vontade imensa de trocar afeto, de pertencer e de se expressar genuinamente.

O Carnaval, pra mim, é também uma oportunidade maravilhosa de vestir o nosso ser político com irreverência. É hora de vestir, ou despir, nossos corpos de acordo com a anarquia que a festa permite, e com os impulsos que vamos deixando tomar forma no improviso das fantasias. São dias para viver livremente as nossas idiossincrasias.

Simplesmente não consigo passar sem isso, mesmo tendo uma filha pequena que ainda mama no peito. Por isso, escolhi um bloco do lado de casa para me jogar nesse mar de vida durante 3 horinhas sagradas. Foi o meu primeiro Carnaval sendo mãe e também a primeira vez que fui pra rua com a bunda de fora. Fui e não sei explicar exatamente o porquê. Saí de casa plena e topei com um mundo de muitas outras bundas de todos os formatos, tamanhos e cores. Eu olhava para elas e seus donos com uma admiração descabida. Afinal, eram apenas bundas, mas não era só isso. Me toquei que finalmente vencemos a chatice daqueles tempos em que só ficavam pelados os “perfeitos de corpo” (nada contra os corpos esculpidos e bem cuidados com saúde, mas perfeição, neste caso, é um conceito ainda mais subjetivo).

Agora, desfilam por aí bundas saradas, caídas, grandes, pequenas. Com ou sem celulites e estrias. Desfilam bundas e pessoas com todos os tipos de beleza e, especialmente, vemos passar com alegria a natureza de cada uma delas. É lindo esse movimento. Ver que estamos nos libertando de críticas, de medos e de padrões. E eu estava lá também. Feliz com o meu corpo flácido e acima do seu peso normal, ainda se refazendo da gravidez e do parto. Eu, que assumidamente sempre pulei o Carnaval tentando esconder meus defeitos.

Peitos, peitinhos e peitões (muitos) mostraram ao machismo que ele ali não tinha vez e entraram nesse coro (apartidário, porém essencialmente político), uma espécie de manifesto do corpo livre. No Carnaval que eu amo e acredito não há mais espaço para olhares tortos, nem inveja ou crítica. Assédio é cafona (quando não é crime), e julgamento é gafe. Já não apontamos mais para outras mulheres focando os seus defeitos ou nos comparando. Olhamos uns para os outros (todxs) numa busca empática e de respeito.

Tá certo que a gente não é feito só de brilho, mas, numa festa com tanto motivo para sorrir, não nos resta muito além de amar também (e mais do que nunca) a nós mesmos. E me parece que as mulheres têm um papel fundamental nessa transformação coletiva. Estamos, com nossas honrosas bundas e peitos, deslocando toda a simbologia sexista e limitada atrelada às nossas imagens e propondo uma reflexão muito mais madura e sincera sobre quem somos e o que queremos do mundo.

O Carnaval, então, é pra mim um convite. Vamos nos liberar e liberar o olhar de quem vê o nu com preconceito e agressividade. Vamos abrir esse caminho com ternura. Acho que é por isso que nos enfeitamos tanto. Pintamos o corpo ou usamos biquínis bordados com todo o paetê possível, maiôs metalizados e os nipple tassels mais lindos e criativos (aliás, foram esses “tapa-tetas” burlescos a maior febre do Carnaval de rua). Não importa com que roupa ou com que corpo. Apenas vamos!

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