Arte

o álbum do tempo

Me arrisco a pensar que nenhuma outra arte anda tão em alta como a fotografia, embora isso não signifique que ela esteja no auge da sua valorização e prestígio. Por representar um mecanismo concreto e direto, capaz de expressar como percebemos o mundo, a fotografia é necessária e pop. Tudo agora vira foto e todos somos uma tentativa meio carente de ser aquele que registra e mostra. Não estamos mais falando de arte e isso é claro!

Neste cenário, restam aqueles que captam instantes com um olhar inspirado. Esses sim, amadores ou profissionais, são aqueles que dão um up na realidade ou revelam um algo a mais que o olho cotidiano não percebe. Restam, também, alguns fiéis à fotografia analógica e ao conceito de Slow Photography, que pretende resgatar o impulso de clicar por outro viés, provocando uma ação instintiva no fotógrafo e uma relação mais íntima e fundamental com o objeto fotografado.

Uma ode a eles e ao tempo que para ao ser eternizado em imagem e fotografia! Essa é a máxima da agência o álbum e de seus trabalhos feitos com processos considerados obsoletos pelo mercado que urge por imagens pixeladas, retocadas e filtradas. Fiquei apaixonada por eles e hoje conto quem são e como vivem.

Brincadeiras à parte, vamos conhecer um pouco da história da dupla por trás desta ideia de agência, o casal de cariocas Bruno Machado e Juliana Rocha, juntos neste projeto desde 2015. Eles são jovens (sim, ainda não bateram na porta dos 30), entusiasmados e apaixonados, porém discretos, com um posicionamento maduro sobre o trabalho que querem desenvolver e imprimir no mundo. O discurso sobre o momento da fotografia, baseados ou não em suas formações em Comunicação Social, é digno de um registro que segue por aqui, depois de uma conversa deliciosa com Juliana, pelo WhatsApp.

O início da agência o álbum 

“Eu e Bruno trabalhávamos juntos no RIOetc – A alma encantadora das ruas e ele me incentivou a fotografar mais com analógico. Nos propomos a fotografar uma vez por semana com câmera analógica para produzir conteúdo autoral que tirasse o foco do que ja fazíamos comercialmente. Neste ponto, começamos a entrar em contato com vários aspectos do analógico que estão sendo questões soterradas pela cultura do digital, como os laboratórios de revelação. Hoje existem pouquíssimos no Rio, posso afirmar que são dois os principais e estão correndo risco de desaparecer, assim como vários filmes que não são mais produzidos. Ficamos matutando o que poderíamos fazer para que essa cultura não desaparecesse, até porque é do nosso interesse que ela continue existindo”

O encontro de tempos

“Começamos a difundir esse olhar e a nossa paixão entre os amigos, dando câmeras analógicas de presente, para estimular um hobby e uma relação com a fotografia diferente da praticada nesta era digital. Nestes tempos, é realmente mágico tirar um número limitado de fotos e não ver na hora o que está sendo captado, não ter aquele imediatismo. Esse retorno da tecnologia antiga traz essa sensação de que passamos por cima de muita coisa e de que é preciso voltar um pouco para descobrir o que deixamos pra trás e que tem um valor enorme”

Analógico x Digital

“Com a fotografia analógica, acho que a gente estabelece um vínculo mais místico com o que fotografamos, porque existe uma ação do acaso ali interferindo. No digital, a gente não imprime mais fotos, tudo está numa nuvem. Se você deleta um arquivo digital, ele desapareceu, deixou de existir e isso é muito complexo para se pensar a memória. No analógico, o arquivo existe, mas é concreto. E nós um dia tomando um café, pensamos que deveríamos transformar esse olhar para o essencial em algo comercial. Essa é uma forma de provar o valor e o nosso ponto de vista sobre o analógico. Não é simplesmente porque a técnica supera o assunto, mas a nossa criatividade e relação como o que é fotografado é mais pura. O digital muitas vezes representa a busca pela perfeição da imagem, com suas correções e repetições, mas muitas vezes a foto perfeita é a foto que acontece e isso só rola no analógico, é o que o Universo te oferece. No digital isso também pode acontecer em situações específicas, a diferença é que no digital a gente fotografa e olha a foto e no analógico, olhamos antes de clicar e observamos mais. Isso é o Slow Photography, uma outra relação com a cena, com as pessoas.

Imagem, consumo e tendência

Hoje em dia a gente tem uma relação mais consumista com a imagem. Fotografamos para provar que estivemos em algum lugar, estou generalizando, para mostrar para o mundo. É um avanço todos poderem divulgar seus pensamentos, mas o Slow faz a gente pensar que tudo é um pouco demais. Reavaliar o que deixamos pra trás, o que atropelamos, resgatar o valor de presença, das relações. Pensar na relação que você estabelece com aquilo que está fotografando, se é simplesmente um clique pra possuir aquilo como um consumo. Estamos no momento certo de estimular essa cultura e de não deixá-la acabar. Esse apreço pelo artesanal, um processo mais experimental, está no inconsciente coletivo da nossa geração e está voltando”

Workshops

“Para dividir o nosso conhecimento sobre o analógico e nossas experiências com Slow Photography, organizamos workshops. Eles são também uma forma de multiplicarmos a nossa paixão, de difundir essa cultura para quem quer aprender e experimentar a fotografia analógica e suas possibilidades artísticas”, finaliza Juliana.

Que prazer foi essa troca de áudios! Ela com dor de garganta e eu entre uma correria e outra, tendo a certeza de que tinha encontrado uma pauta perfeita para o Cena Crua! Por aqui, ainda aproveitamos um dos ensaios mais lindos da dupla e as informações do próximo workshop, na Serra da Bocaina, agorinha! Vejam os detalhes abaixo!

agência o álbum Bruno Machado e Juliana Rocha da agência o álbumSlow Photography fotos da agência o álbum agência o álbum fotos

SLOW PHOTOGRAPHY COMO PROCESSO CRIATIVO por o álbum & Pousada Águas da Bocaina

Experimentamos o mundo através da imagem que capturamos dele. Fotografar, hoje, é como uma ação involuntária, insconsciente. O Slow Photography, no entanto, propõe uma experiência emocional, imersiva. aqui, entendemos a fotografia como devoção ao tempo.

As práticas do workshop serão desenvolvidas durante três dias no âmago da Mata Atlântica, na Pousada Águas da Bocaina, em uma reserva florestal cercada por cachoeiras. Um recanto para imergir em experimentações e descobrir novas possibilidades da linguagem fotográfica. Os momentos práticos e teóricos vão permear todo o tempo de convivência, para compartilhar referências fotográficas, audiovisuais, e de qualquer origem que possa aprofundar a percepção dos participantes.

Slow Photography by agência o álbum

Data e horários (carga horária de cerca de 20h)

18, 19 e 20 de novembro (sex/sáb/dom)
sexta-feira das 18h às 20h
sábado das 08h às 20h com breaks
domingo das 08h às 14h com breaks

Programa

+ os sais de prata
entendendo o suporte
negativo x positivo
as asas & os filmes

+ a câmera
os formatos
os ícones
auto x manual

+ a revelação
push x pull
o laboratório e suas magias
x process e experimentações

+ grão x ruído
o slow photography
aceitar o acaso x forçar o acaso

Práticas

o caminhar como prática criativa
dinâmicas de corpo e espaço
fotografia na floresta
fogueira fotográfica

Valor

para informações sobre valor e formas de pagamento: reservas@pousadaaguasdabocaina.com.br

+ inclui
hospedagem na Pousada Águas da Bocaina durante os dias 18, 19 e 20 de novembro (sex/sáb/dom)
04 refeições por dia, 01 passeio, 01 filme fotográfico ~especial~ + revelação + digitalização, sorteio de fotolivros

O que levar?

agasalhos (faz frio)
câmeras analógicas (caso tenham. analógicas estarão disponíveis para os alunos.)
filmes fotográficos ( estará disponível 01 filme ~especial~ por aluno, mas levem mais!)
roupa de banho (para o banho de cachoeira)

+ Ensaio Texturas do Brasil: Maranhão

+ The Upper Air: conteúdo e modo de vida no mundo

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