Comportamento/ Para pensar junto

Malucos que falam sozinhos

Acordar na segunda-feira achando que é domingo é desolador. Meu marido está viajando e eu não tenho ninguém por perto para compartilhar a sensação. Tudo certo, nada que não passe logo ou enquanto escrevo este texto. Também não é o caso de procurar as redes sociais para desabafar.

lila guimarães

Hoje de manhã achei que era domingo, percebi que estava errada e me dei conta também de outros detalhes da vida cotidiana que andam desajustados. Segunda-feira é implacável!

Sabe aquela cena que a gente já viu milhões de vezes pela janela do carro, do metrô ou do ônibus e quando somos crianças até achamos engraçada? Pessoas falando e gesticulando sozinhas, sem nenhum pudor acreditando plenamente que estão em um diálogo? Lembrou?

Talvez elas não sejam malucas e com certeza isso não é nada engraçado. Não sabemos, dá uma angústia, mas é mais ou menos assim que a gente anda hoje em dia. Vivemos como “malucos” que falam sozinhos.

– é preciso deixar claro que não tenho gabarito para definir o termo “maluco”, que estou usando a palavra da forma mais direta (e chapada), que nem todo mundo que fala sozinho é triste ou tem problemas, etc e tal. Estou tentando apenas ilustrar algo que vive no meu imaginário como sinônimo de solidão –

Passei meio revoltada e triste esses últimos dias com uma mistura bombástica de TPM, lua em áries e mensagens não respondidas. Fiquei achando que existe um Universo suspenso que vaga no infinito cheio de desejos, de ideias e projetos que nunca serão realizados por simples falta de comunicação.

Vagam até pedidos de orçamento e propostas de trabalho. Num Universo paralelo, talvez essas mensagens se encontrem e todos estejam felizes, amando e sem problemas para pagar as contas mensais. Seria lindo!

Mas no plano real, esse comportamento alienado empaca a vida e faz você acreditar que a sua ideia não vale. A TPM é foda e a coisa toda pode ficar bem dramática, mas no fundo é disso que se trata.

Quando jogamos algo no mundo, é como uma vara de pesca que lançamos com energia e alguma esperança. Uma mensagem de trabalho ou pessoal que não é respondida não é apenas uma falta de atenção ou de educação, mas um vício que nos faz permanecer vagando, flutuando sobre as possibilidades, desgastando o brilho das ideias.

Com menor impacto, o mesmo acontece quando comentamos os posts dos amigos. Estamos falando sozinhos. Falando, falando e falando a todo momento. Frases de efeito e máscaras sociais estão quase sempre à frente do discurso público e solitário.

Também não esperamos que tudo seja respondido, afinal isso demandaria ainda mais comentários e respostas. Banalizamos o nosso tempo, mas nem tanto! No final, o que fazemos é comentar e receber likes em troca. Na maior parte do tempo. Tudo bem.

Então passamos no Instagram para uma pesquisa rápida e lá estamos escrevendo cool, uau, lindo, nossa e tudo mais. Na ponta do lápis, quantas horas por semana você falou sozinho? Não se admire se um dia você cruzar com alguém em um carro, num ônibus ou caminhando do outro lado da rua enquanto você fala e ninguém escuta. Não se assuste com o reflexo na janela ou com o que vai ver pelos olhos dos outros.

Ou… vamos dar a chance da semana começar melhor… antes disso acontecer, é claro que podemos escolher por não alimentar o Universo Suspenso. Se ele existe mesmo, podemos também resgatar sua potência e usá-la aqui e agora.

foto: Victor Affaro

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