Para pensar junto

MAIS CINEMA, POR FAVOR!

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A expressão “parece mentira” nunca foi tão próxima da verdade quando o assunto é a atual situação do cinema brasileiro. Esse não será um artigo de estatísticas e dados, se bem que até deveria, considerando que vivemos num país que o tempo todo nos põe à prova, num sistema bem cruel no estilo se “matar a cobra, tem que mostrar o pau”. 

A diferença é que estamos no CENA CRUA, um espaço leve, para cima e aberto ao diálogo. Aqui, estou mais para entrar no coração do que exatamente na mente do leitor. Hoje existe uma inquietação da indústria e, principalmente, das pessoas (porque sim, estamos lidando com pessoas), que se perguntam o tempo todo como se explica que num país onde o audiovisual só nos dá orgulho, que só cresce gerando conteúdos potentes e formando excelentes profissionais, que gera um número quase incontável de empregos direta e ou indiretamente, que traz conhecimento, entretenimento, que chama a atenção do mundo, ganha prêmios no Festival de Cannes e que está neste momento a caminho do Oscar, senhoras e senhores, sim, eu disse Oscar, viva igualmente o temor do fim.

O mundo inteiro faz cinema. A era digital proporcionou isso. Faz cinema quem tem dinheiro, faz cinema quem está na favela, há quem faça faculdade de cinema e até a pessoa aparentemente mais improvável está fazendo cinema, às vezes até por necessidade de se expressar, para contribuir com conhecimento, eternizar uma história, uma pessoa, um lugar, uma época, uma idéia. O cinema, assim como todo tipo de arte, está diretamente ligado à vida. Pergunte a quem fala mal do cinema, a quem faz parte do time que não apoia os investimentos, se pelo menos um dia da sua vida ele não teve o prazer de estar ao lado de um filho, dos amigos ou do seu grande amor assistindo a um bom filme. Se alguma vez ele, num dia triste, acabou morrendo de rir diante da TV ou de uma grande tela, e se até mesmo aquele primeiro encontro especial com alguém mais especial ainda não foi na fila do cinema, com um irresistível pacote de pipocas na mão.

Sou atriz, mas esse assunto não é em causa própria, porque em se tratando de arte, nunca será. Eu estava lá no Festival de Cannes este ano, dentro e fora da tela, e posso garantir que é um feito o Brasil receber dois prêmios* num evento desse nível. Que sim, é o reconhecimento de um trabalho impecável, mas também é um sinal de que estamos no caminho certo. Eu vi um festival inteiro cair aos nossos pés e repito, foram dois prêmios. Aí quando ainda estamos em êxtase pelo acontecido, vem a notícia que estaremos no Oscar, com chances concretas de trazer o caneco. Ainda sem ar, deixei que Carol Duarte, uma das protagonistas de “A vida invisível”, do Diretor Karim Aïnouz, falasse: “É um momento muito feliz do cinema brasileiro, apesar dos terríveis ataques à cultura por um governo ignorante e tacanho, os filmes produzidos aqui estão ganhando o mundo. Bacurau é um filme que fala muito do nosso tempo na violência e a distopia expostas. ‘A Vida Invisível’ dilacera o sistema patriarcal e machista que arrasta tantas mulheres violadas ao longo da história, foram nesses patamares que caminhamos, com os homens determinando as guerras e as leis. Fico muito feliz de participar desse momento que se configura como resistência da cultura brasileira, é como se disséssemos que somos maiores do que a ignorância!”.

Julia Stockler e Carol Duarte, em frame de A Vida Invisível
Carol Duarte em cena

“A Vida Invisível”, com produção de Rodrigo Teixeira, é um dos filmes premiados em Cannes (venceu a mostra Un Certain Ragard do festival francês este ano), e vai defender a estatueta do Oscar em 2020. Na trama, Carol é ninguém mais ninguém menos do que Fernanda Montenegro jovem, que aparece no final do longa e arrebata nosso coração. A característica mais marcante do artista é a força e a persistência, e desta vez, não será diferente.

MAIS CINEMA, POR FAVOR!

* “Bacurau” ganhou o Prêmio do Júri como melhor filme do festival

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