Para pensar junto

Logo eu, que sou tantas em uma só

tatiana maciel

Instigada com uma brincadeira que anda dominando o Facebook desde a semana passada, a ideia por aqui é pensar sobre o tema IDENTIDADE com a roteirista e escritora Tatiana Maciel. Logo ela, que é pernambucana, mas vive no Rio de Janeiro, que ouviu a vida toda que não sabia dançar e deu um show de freestyle na noite de Londres quando resolveu se livrar do que acreditava ser. Ela, que tira da própria caixola tantas personagens e que lançou no ano passado o filme Desculpe o Transtorno, uma comédia com Gregório Duvivier em crise de dupla identidade.

Tatiana, também escreveu a história de um figurante que entra no sonho das pessoas e atua de acordo com o que pode em cada um deles, no livro O Homem dos Sonhos. Enfim, eu não poderia estar em melhor companhia para esse papo, que aconteceu por horas deliciosas em seu apartamento, ainda por cima com uma vista maravilhosa para a praia de Copacabana.

roteirista e escritora Tatiana Macielpraia de copacabana vista aereaSua aventuras entre o Rio, São Paulo e Recife começaram cedo por conta de mudanças profissionais dos pais, o que deu uma boa chacoalhada na cabeça da escritora, muitas vezes quebrando padrões e reavaliando seu jeito de ser e de pensar. Aos 15 anos foi morar em São Paulo. Era tímida e achava que os colegas novos não gostavam dela. Convidada para as festas, imaginava que as pessoas estavam apenas sendo educadas. Não apareceu em nenhuma! Quando voltou pra Recife, recebeu um monte de cartas, a prova por escrito de que tinha criado uma personagem que não existia e uma história que viveu sozinha. “A menina da escola que eu achava o máximo também me escreveu e eu entendi que era tudo um truque maluco da minha cabeça”, conta Tatiana.

Esse foi um dos episódios que marcou a escritora e a fez pensar em como nos aprisionamos em ideias fixas a respeito de nós mesmos. É sobre isso que muitas vezes gosta de escrever, sobre pessoas que entram em crise com o lugar que elas estão ocupando e como estão sendo percebidas. “Esse é um tema que me comove. Em algum nível, meus personagens acabam me revelando coisas sobre a vida e modos de viver. Sempre tem um momento em que tudo vira ou em que deixamos para trás o que não faz mais sentido”, conta a escritora.

“O pior é quando as pessoas começam a dizer o que você é ou não é, te definindo e enquadrando numa ideia que não corresponde exatamente à verdade. Ou quando alguém morre e é lembrado por outra pessoa em comentários do tipo: ‘como diria Fulano…’. Quem disse que Fulano ainda pensaria daquela forma se estivesse vivo? Não acho justo! (rimos bastante nesse ponto da conversa). Todo mundo acha que vai mudar no 31 de dezembro, mas o amigo, o outro, vai ser sempre aquele que fez isso ou aquilo ou que vacilou”.

Adoro o que Tatiana fala e quero saber se ela desconfia o motivo do apego ao ego e à imagem que fazemos dos outros e de nós.

“Penso que tem a ver com o medo, até mesmo medo de se desconectar com o outro e um pouco de preguiça em reconstituir as relações. Qualquer pessoa só é aquela pessoa quando você reconhece suas atitudes. Se ela muda, você é obrigado a sair do seu lugar. As relações já são complicadas paradas. Em movimento, mais ainda. É preciso ter abertura e generosidade. Quando, depois de muito tempo, reencontramos uma pessoa querida, tanta coisa se passou, tudo mudou, mas o afeto nos dá uma flexibilidade em aceitar e sentir conforto na presença daquele novo amigo, daquele antigo estranho”.

Tatiana MacielEste talvez seja o segredo que nos mantém ligados uns aos outros. Uma certa identificação, uma empatia que vai além do racional. Uma pessoa flutua entre lugares e posições, mas em algum ponto existe algo apenas dela, que nos marca e captura. Ela pode mudar e deve. O mundo muda, o ego é apenas uma ideia do que somos. Essa brincadeira de “logo eu” é engraçada, mas é também uma mania de nos agarrarmos a qualquer referência concreta, como se isso garantisse alguma segurança.

Para encerrar essa reflexão, quis saber por quais lugares do mundo Tatiana passou e como eles influenciaram a sua identidade.

“Viajar me traz novos centros de gravidade, as coisas se relativizam. Eu gosto de voltar aos lugares que eu realmente gosto. Adoro Buenos Aires! Minha alma está lá. Se toca um tango, eu choro como se tivesse sido nascida e criada por lá, por mais cafona que isso possa parecer. Morei em Londres, o cheiro da cidade me faz sentir que estou em casa! Barcelona é incrível, divertido e logo me senti à vontade! Los Angeles é muito familiar, não parece a América clássica, às vezes me sinto no Leblon, sempre conhecendo pessoas do cinema. Hoje em dia, em meia hora num lugar diferente, já acho que sou de lá. Eu sempre quero estar onde estou, isso pode ser a maturidade”, conta a roteirista, que agora escreve um longa-metragem com cinco histórias inspiradas em falas do escritor Ariano Suassuna e que será dirigido por José Eduardo Belmonte, com previsão de lançamento para o próximo ano.

+ Escute a playlist da Tatiana Maciel para o Cena Crua!

Fotos: Daniel Lima

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