Comportamento/ Para pensar junto

Keep glowing

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Outro dia li ou ouvi uma frase não sei onde, mas ela ficou em mim. Desde então, sempre a repito para os amigos que precisam de um conselho ou algum otimismo: “Não importa o que aconteceu, o que importa é o que você fez do que aconteceu” *. Pode ter sido coisa da Laerte, no doc Laerte-se. Não consigo mesmo lembrar.

O sentido desta frase é tão maravilhoso e abrangente que pode ser a solução para qualquer problema. Afinal, a vida está aí como uma onda enorme e não temos controle sobre ela. Temos, no entanto, o poder de encontrar caminhos e atalhos alternativos ao fracasso com jogo de cintura e uma dose de ambição em vencer.

Sei que cada um tem a sua ideia sobre o fracasso, assim como sobre o sucesso. Fracassar por aqui, podemos convencionar como o nome que damos para quando saímos do trilho sem nunca voltar, renunciando algo ou alguém que era realmente importante por medo, preguiça ou irresponsabilidade. Deixando uma parte boa da gente de canto ou um talento escondido, por exemplo.

Não existe nenhum problema em desistir de sonhos ou mudar de ideia. Às vezes isto é sinal de uma inteligência emocional firme e respeitável! Ruim é deixar de acreditar em projetos que amamos de verdade ou desanimar com os obstáculos que aparecem muitas vezes como uma gincana sem-fim.

Como a vida é um script escrito à muitas mãos, não dá pra esquecer que duas delas são nossas e é sobre isso que estou pensando agora que acabei de devorar todos os episódios de Glow. A série do Netflix, lançada no último dia 23, estranhamente me fisgou.

Não sou muito de séries, tenho a impressão de que elas enrolam a gente como as novelas, mas desta vez… perdi playboy! O produto é sarcástico, engraçado e inteligente, sem contar que os anos 80 são bizarros! Mas não é só.

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Para quem ainda não viu, ou nem pretende ver, a trama é uma comédia dramática que narra o dia a dia de atrizes desempregadas em Los Angeles nos anos 80 que acabam embarcando num projeto de show de luta livre para a TV como uma forma de viver do que amam. A ideia é declaradamente trash e machista, mas elas encaram a oportunidade como única e levam tudo muito a sério. Treinam duro, estudam e criam personagens com motivações para os golpes, chutes e pontapés.

Foi aí que eu me apaixonei pela série, pela luta por trás da luta. Pela fé cênica que é tão forte que invade a vida e transforma seus bad karmas, seus padrões, suas relações e tudo mais. É nesta energia, na vontade de fazer, de acertar, de ser melhor, que está a força magnética da série. É inspirador ver cada uma das personagens no esforço por sua dignidade, levantando para tentar de novo e de novo, mesmo em estado patético e fragilizado.

Esse combo de intenções é o que faz qualquer proposta neste mundo, pessoa ou história ser cativante. É uma arte de se aplaudir esta de fazer “do limão uma limonada”, mesmo sem açúcar, ainda um pouco azeda… Dialogar com aquilo que saiu do previsto atropelando feio os planos, organizar nossos medos e limitações como atletas que não faltam aos treinos ou como atores pontuais em seus ensaios, fiéis aos processos, é brilhar!

GLOW netflixFotos: Divulgação Netflix

* Acabo de saber por um leitor que o pensamento é do filósofo Jean-Paul Sartre e a cartunista Laerte apenas o cita no filme. As frases originais são: “Não importa o que a vida fez de você. Importa o que você fez com o que a vida fez com você”.

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