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lila guimarães cena crua

Como é que eu vou explicar para aquelas que ainda não se decidiram sobre ser ou não ser mãe que este não é um texto pessimista? Como vou fazer para que todos aqueles que têm me acompanhado, de perto ou de longe, e que me encontram sorrindo, entendam que estas palavras são apenas um outro lado de uma história linda, um lado até mais fraco, mas que coexiste com toda a alegria, a mágica e a potência que venho sentindo com a gravidez?

Longe de mim desfazer a imagem de grávida feliz que me tornei, daquela que aos oito meses e meio ainda tem pique e bom humor apesar das dores nas costas, nos quadris, na pélvis e das insônias constantes desde as primeiras semanas! Coloque aí também uma boa dose de azia, cansaço e confusão hormonal. Mesmo assim, ando na linha como uma equilibrista num circo com poucos espectadores. Afinal, todos perguntam como você está, mas, na verdade, quase ninguém imagina o que é estar no seu lugar.

É nessas horas que a gente ri de quem inventou que mulher é sexo frágil. Também de quem adora repetir aquele ditado antiiiigo que diz que “gravidez não é doença”. Pois, realmente, não é e não precisa me lembrar! É uma sorte, uma dádiva, uma maravilha! Mas diga lá você, que nunca teve uma cólica menstrual na vida, o que faria se sentisse um cansaço fulminante, com dores nas articulações, enjoos e azia? Opção A: tomaria uma aspirina e passaria um dia de repouso até melhorar; B: ligaria para o médico; C: baixaria correndo num pronto-socorro. Enfim…. vamos deixar isso pra lá porque a dor maior não é a física e também não passa com remédio.

É um luto. Um luto tão particular que nem imaginei que pudesse existir. Quando descobri que estava grávida fiquei eufórica, feliz, surpresa, grata, muito grata e… nostálgica. Muito nostálgica! A ponto de resgatar memórias lá das minhas profundezas, coisas que nem sei onde se esconderam por tanto tempo. E isso me acompanhou durante muitos momentos da gestação. Todas as lágrimas de emoção e felicidade, no fundo, vieram misturadas a gotas pesadas e involuntárias de uma dor que é diferente. Uma dor bonita de despedida.

No teste positivo já sabemos que não somos mais as mesmas, não somos mais as únicas donas do nosso corpo, do nosso tempo e do nosso coração. Ele bate diferente agora, é uma nova fisiologia em prática integral que assumimos imediatamente. É aí que acontece também uma coisa muito boa…. você percebe que ama a sua vida e que se ama, que se perdoa automaticamente por tudo o que fez e deixou de fazer. É nesse momento que você valoriza sua trajetória porque se sente medo de mudá-la totalmente é porque aquele modo de vida devia ser bom! E não é que vai ser pior daqui pra frente, pode ser ainda muito melhor com um filho, mas é outra vida. Aquela… morreu!

Passei a me ver de fora, a me ver duas em uma: eu, no auge da fertilidade com todo vigor da saúde estampada na cor e viço da pele… e outra eu, meio amoada, pálida e vestida de preto. Sempre juntas, nós somos isso aí. Acho, enfim, que a maternidade, quando ela chega, é uma espécie de morte lenta e os 9 meses, quase 10, são um cortejo até o renascimento de uma outra mulher, que tem a sorte e o privilégio de estar acompanhada por um outro nascimento.

Sei que ainda tenho o parto pela frente, e que por minha vontade deve ser natural, mais um rito de passagem forte e desejado. Mas, aos poucos, sinto a dor indo embora. Vou me apaziguando com esse luto, admirando que ele tenha me acontecido. Vou me tornando mais mãe, mas ainda choro ouvindo uma marchinha antiga de Carnaval sentada sozinha no balcão da Conceição Discos enquanto devoro o melhor pudim da cidade e lembro da minha infância em Paquetá. Dos bailes para os quais eu ia vestida de odalisca ou coisa parecida, com fantasias que minha mãe todos os anos costurava para que eu fosse, ali, naqueles breves momentos da vida, o ser mais feliz e protegido do mundo. Poxa, e o mundo como anda, não? É muito louco tudo isso… a gente tem o poder de gerar tanto amor e aqui fora tanta maluquice… e isso é outro assunto que faz chorar….

Então a gente chora e a gente ri, a gente sente o que não cabe na gente e assim vai… e quando a Flora chegar eu espero estar firme, espero mostrar pra ela as coisas lindas da vida, me surpreender com o que ela vai me ensinar, me reinventar como ser humano, me descontrolar de amor, me perder nas suas e nas minhas dúvidas, me envolver com o seu universo, e mais uma vez sentir minhas mortes e meus renascimentos como um belo cardápio de sensações e de aprendizado que a vida pode me apresentar.

Deve ser isso, então, aquele verso do Cazuza… Só as mães são felizes. E sim, é preciso morrer e voltar das profundezas para ser mãe, simplesmente como as Deusas mitológicas.

Mãe, eu te amo!

E pessoal, não sei quando conseguirei escrever mais aqui no Cena Crua, estou precisando parar…. mas espero que logo em breve!

lila guimarães cena crua

Foto Julia Rodrigues 

festival mariri amazônia

Num momento tão confuso como esse no Brasil, melhor do que passar um tempo fora, longe de tudo, é olhar de vez para as nossas origens. Seja como um exercício de observação e percepção crítica da nossa História ou mesmo para uma transformação mais completa e profunda.

Assim, o Festival Mariri funciona como um chamado gentil no meio dessa sensação de urgência. O convite é para uma semana na floresta, 5 dias dedicados aos rituais e à cultura tradicional Yawanawa na Aldeia Mutum, que fica na Terra Indígena do Rio Gregório no Acre.

O festival acontece entre 27 de julho e primeiro de agosto! Dá tempo de pesquisar sobre o evento e de procurar uma forma segura e simples de chegar lá. A dica é ir com a Amazon Experiences, operadora de ecoturismo que acompanha e vive a experiência com quem viaja. Seguem os contatos: gustavo.ecoturismo@gmail.com / +55 93 992026929.

Fotos do Victor Affaro durante o Festival Mariri de 2016

danças e rituais Yawanawa Festiva Mariri foto victor affaro

+ Leiam mais sobre o Festival e assistam ao filme Diário da Amazônia