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meditacao tibetana

A melhor das relações é aquela em que tomamos o nosso tempo antes de responder ou ter que decidir algo em conjunto. Essa calma a gente às vezes não tem nem quando o diálogo é interno e por isso nos precipitamos em situações que poderiam ser resolvidas de forma mais consciente. Escrevo isso com toda a propriedade, especialmente, porque umas das minhas maiores rivais é a ansiedade. Tenho estado de olho nela, mas acabo voltando para esse padrão sempre que me desconecto do meu centro (do meu estado de calma, de onde posso ouvir as minhas certezas).

Foto: Ian Keefe, no Unsplash

É assim, como um músculo sem tônus, que a mente descarrilha sem oxigenação e silêncio. Para esses fins, a meditação é provada um ótimo exercício com amplas possibilidades e técnicas que aliviam a atividade excessiva e viciada dos pensamentos. Na yoga, descobri o potencial de uma cuca mais quieta e já experimentei algumas meditações guiadas, mas confesso que tenho dificuldade de me entregar ao que me parece ser o vazio.

Sabendo dos benefícios de qualquer meditação, eu que não sou boba, continuo na busca insistindo em me aprofundar na prática a cada tentativa. Por isso, fui atrás da Vanessa Aragão, especialista em filosofia da mente pelo Monastério Kopan, no Nepal e idealizadora do projeto @meditanteurbana, que funciona como um laboratório de estudos e aulas em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Vanesa no Rio de Janeiro

No budismo tibetano, estudado por ela, a meditação é como um ato de despertar. “Despertar é estar atento; e atento, você passa a tomar conta do seu corpo e da sua mente. Você passa a compreender os seus padrões mentais”, me disse Vanessa. E foi com essa sensação que saí de um encontro com ela, no qual meditamos por uma hora. Uma hora que reverberou por alguns dias ainda, porque pude perceber minhas ações e reações mais qualificadas e organizadas. Como se tivesse ganhado a habilidade de surfar ondas gigantes com firmeza para não ser ejetada da prancha. A imagem faz sentido para você?

Vanessa no Nepal em 2016

É isso o que o exercício da meditação promove. Ela é um treino que nos coloca no controle das coisas mesmo quando tudo em volta é caótico e urgente, como geralmente é a vida cotidiana, ainda mais na cidade. “Com o tempo, você aprende a criar um espaço interno para relaxar e abrir mão das tensões”, continua Vanessa. Claro que já posso imaginar o efeito da meditação quando ela é constante e que o melhor dos mundos seria praticar todo dia. Um sonho ainda na minha lista. Quem sabe?

O ganho desta vez, foi encontrar por trás do “vazio” um paraíso só meu, onde posso mergulhar profundo e emergir para buscar mais ar. Não sei como as outras pessoas que estavam na sala se sentiram, eu me emocionei em contato com esse lugar. Estávamos no que Vanessa chama de roda de meditação analítica guiada. Na verdade, são várias rodas, um ciclo de encontros que acontecem na Casa Reviva, em Pinheiros (SP), e que são baseadas na tradição tibetana, associadas a práticas de concentração com exercícios de respiração e entoação de mantras. “Os temas de cada encontro são um pontapé inicial para uma reflexão pessoal. Encerramos o ano com uma investigação sobre o silêncio do som, nos reconectando com um espaço interior que é ausente de conflitos e expectativas. Aprendemos técnicas para nos concentrar nesse espaço podendo conviver com os sons externos, sem perder o contato com aquilo que cada um tem de essencial.”

Agora, no início deste mês, ela parte para uma nova temporada de estudos sobre o som e suas aplicações terapêuticas como aluna residente do Monastério Kopan e do Instituto de Sound Healing do Nepal. Na volta, ela que mora no Rio de Janeiro, vai estar quinzenalmente em São Paulo para retomar as rodas. Que traga, então, mais som como uma luz silenciosa para despertar a gente!

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movimento e espiritualidade

Começo o texto com um provocação, embora minha ideia não seja incomodar quem passa por aqui. Vamos lá! Há quanto tempo você não dança? Você dança de olhos fechados? Sem ninguém por perto? Em casa? Dança com quem você mora?

Na minha antiga casa, o tapete da sala era a nossa pista de dança. Hoje danço mais na cozinha (é um jeito divertido de distrair minha filha enquanto preparo algo para gente comer). A dança aqui rola naturalmente pela força do hábito e do próprio ato.

Dançar libera tensão e mexe por dentro tirando do lugar emoções escondidas que grudam na gente viciando ações e pensamentos. Arejar o corpo e a mente com o movimento é simples e gostoso, mas pode ser ainda mais. É uma maneira de nos ligar ao nosso espírito e ao que nos une ao todo. Leia as palavras espírito e todo da forma que fizer mais sentido para você, mas gosto muito de lembrar de um conceito que aprendi com a Lívia de Bueno numa entrevista para o CENA CRUA (publicada aqui): a espiritualidade é (entre outras infinitas interpretações) a forma como nos relacionamos com a nossa consciência.

foto: Mariana Caldas; Lila veste Ronaldo Fraga

No Oriente e Ocidente, existem tradições e danças sagradas que evocam energias purificadoras e outras poderosas de transformação e de cura. Elas são manifestações de fé em rituais religiosos ou místicos de conexão com entidades e arquétipos. São um portal de acesso para consciências coletivas, autoconhecimento e que até podem provocar estado meditativo. Algumas trabalham sob o signo da adoração e, no exercício da pura liberdade de dançar, essa devoção pode ser direcionada ao o que bem quisermos, inclusive à vida. A dança me conecta com algo sutil e universal, ela ressignifica a minha presença no mundo, fora a sensação de bem-estar… é tipo mergulhar no mar para tirar a “zica”. Você sente isso?

Lendo sobre o assunto, encontrei uma passagem do livro A dança sagrada, da pesquisadora e coreógrafa alemã Maria- Gabriele Woisen, que me encantou e que é citado no capítulo de introdução de outro livro interessante: A dança, do bailarino, coreógrafo e professor brasileiro Klaus Vianna: “da mesma forma que a criação esconde o Criador, o invólucro físico do homem esconde a sua espiritualidade. Dançando o homem transcende a fragmentação, esse espelho partido cujos pedaços representam as partes dispersas do todo. Enquanto dança, ele percebe novamente que é uno com seu próprio Eu e com o mundo exterior. Quando atinge tal nível de experiência profunda, o homem descobre o sentido da totalidade da vida”.

Maria- Gabriele desenvolve coreografias coletivas em círculos e bebe na fonte de diferentes e antigas tradições religiosas, místicas e folclóricas. Ela é uma referência no tema que anda em pleno resgate e aprofundamento, especialmente entre as mulheres. Além das danças circulares – que, segundo a autora, têm como essência o poder de nos conectar além dos limites da nacionalidade, da religião, do gênero, da idade e tantos outros – há novas metodologias sendo desbravadas como a Danza Medicina, criada pela brasileira Morena Cardoso que já tem uma legião internacional de fãs. Todas testemunhas dos processos transformadores e de empoderamento feminino que se realizam através do corpo entregue a uma dança individual e única proposta pela pesquisadora. A ideia é criar espaço interno para uma reconexão com a ancestralidade e também potenciar liberdade e energia, motores para um vida plena e consciente.

Com certeza está nos meus planos um encontro com a Morena. Por enquanto, aumento o som em casa e me mantenho em movimento como posso. E você? Há quanto tempo não dança?