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Símbolo de submissão para alguns, de força para outros, do padrão clássico de beleza ocidental para muitos, o cabelo comprido é cheio de significados, sobre os quais comecei a pensar desde que comecei a deixar o meu crescer. Já vivi outras fases, nos últimos dez anos, de fios mais longos (perto do ombro), mas eles sempre vieram acompanhados de uma franjinha na testa o que, para mim, mudava completamente a mensagem e a imagem. Tive franja por, literalmente, 20 anos. Isso acabava padronizando quase todo corte que, via de regra, era geométrico. Franjinha + geometria = uma variação entre uma francesinha retrô tipo Amélie Poulain e uma heroína de mangá moderninha. Desta vez, nada de modernidade ou de toque retrô romântico. Longo, volumoso e sem cortes gráficos, meu cabelão, ironicamente (do ponto de vista da história feminina capilar), me trouxe uma sensação de liberdade.

O Nascimento de Vênus (1484 /1486), de Botticelli

Talvez se tivesse adotado um penteado milimetricamente liso e escovado, cairia inevitavelmente numa outra categoria. Mas, com raras exceções (uma vez a cada dois meses, talvez?), meu cabelo seca naturalmente ou com secador, passando a mão mesmo (sem modelar com escova) e assim não perde volume, eventuais frizz e sua ondulação natural. Fica mais para uma versão um pouco lisa da Gal cantando lindamente o “Cabelo, Cabeluda, Cabeleira, Descabelada” (música do Arnaldo Antunes) do título desse texto do que para propaganda da L’Oréal. Talvez tenha um mood levemente anos 70, quase entre Novos Baianos e Farrah Fawcett (I wish!). Mas, ainda assim, não se encaixa totalmente numa categoria de estilo capilar.

É um cabelo mais “mulherão”, e foi isso no começo que me trouxe um certo incômodo e me fez pensar. Vou eu virar agora uma perua? Uma mulher que se encaixa num padrão fácil de beleza feminino, quase esse aí desejado pelos homens, reforçando o poder da aprovação do patriarcado, literalmente, sobre a minha cabeça? Logo eu, que quando fiz 20 cortei o cabelo curtinho e assim permaneci pelos 10 anos seguintes, sem ligar para os eventuais atrativos de bate-cabelo?

É histórica a relação do cabelo curto feminino com a quebra das regras impostas pela sociedade às mulheres. Joana D’Arc, no século 15, já usava cabelos curtos, o que acompanhava sua postura independente de heroína militar francesa. A primeira onda feminista, no final do século 19, início do século 20, foi marcada pelo direito ao voto feminino e pelo cabelo curtinho à la garçon, atualmente uma versão curta do bob, ou do chanel. São os cortes das melindrosas dos anos 1920. Nessa época, jornais e revistas desaconselhavam as moças a cortarem o cabelo, e muitas ficavam mal faladas ao resolverem mostrar a nuca enquanto se livravam também dos espartilhos. Na segunda onda feminista, novamente os curtos reinaram, anos 60, Vidal Sassoon. O que a gente queria – e quer – era ter os mesmos direitos e o mesmo respeito dirigido aos homens, nos vestirmos de maneira confortável e termos o corte de cabelo que bem entendêssemos. Até hoje, um cabelo curto numa mulher tem o poder de passar, de cara, esse recado. E isso é incrível. Ao mesmo tempo, o cabelo longo vem carregado de significados interessantes. Para culturas antigas, como a indígena americana, o cabelo longo é sinal de força espiritual. E isso tanto para homens quanto para mulheres (por isso os índios americanos têm aquele cabelão). O cabelo longo significaria a extensão do pensar. Para as bruxas, o cabelão também traz poder, por isso elas são retratadas todas com longos cabelos. E por isso, também, os cabelos das mulheres acusadas de bruxaria eram cortados à sua revelia durante a Inquisição. Talvez esteja num momento mais bruxona, espiritualizado. Que cresçam então os cabelos, e caiam as amarras.

carnaval corpos feminismo

Acabou o Carnaval e senti vontade de escrever esse post sob um ponto de vista muito pessoal. Sei que a folia dos últimos dias bateu diferente em cada um e que ela sempre terá significados únicos. Há quem deposite no Carnaval a fé de que todo mal será queimado com o poder do povo pulando junto em sincronia. Outros condenam a festa ou apenas preferem não ter nenhuma relação com ela. Eu, por exemplo, acho fundamental o encontro nas ruas para cantar, dançar e batucar nossas tradições. Vejo nisso uma vontade imensa de trocar afeto, de pertencer e de se expressar genuinamente.

O Carnaval, pra mim, é também uma oportunidade maravilhosa de vestir o nosso ser político com irreverência. É hora de vestir, ou despir, nossos corpos de acordo com a anarquia que a festa permite, e com os impulsos que vamos deixando tomar forma no improviso das fantasias. São dias para viver livremente as nossas idiossincrasias.

Simplesmente não consigo passar sem isso, mesmo tendo uma filha pequena que ainda mama no peito. Por isso, escolhi um bloco do lado de casa para me jogar nesse mar de vida durante 3 horinhas sagradas. Foi o meu primeiro Carnaval sendo mãe e também a primeira vez que fui pra rua com a bunda de fora. Fui e não sei explicar exatamente o porquê. Saí de casa plena e topei com um mundo de muitas outras bundas de todos os formatos, tamanhos e cores. Eu olhava para elas e seus donos com uma admiração descabida. Afinal, eram apenas bundas, mas não era só isso. Me toquei que finalmente vencemos a chatice daqueles tempos em que só ficavam pelados os “perfeitos de corpo” (nada contra os corpos esculpidos e bem cuidados com saúde, mas perfeição, neste caso, é um conceito ainda mais subjetivo).

Agora, desfilam por aí bundas saradas, caídas, grandes, pequenas. Com ou sem celulites e estrias. Desfilam bundas e pessoas com todos os tipos de beleza e, especialmente, vemos passar com alegria a natureza de cada uma delas. É lindo esse movimento. Ver que estamos nos libertando de críticas, de medos e de padrões. E eu estava lá também. Feliz com o meu corpo flácido e acima do seu peso normal, ainda se refazendo da gravidez e do parto. Eu, que assumidamente sempre pulei o Carnaval tentando esconder meus defeitos.

Peitos, peitinhos e peitões (muitos) mostraram ao machismo que ele ali não tinha vez e entraram nesse coro (apartidário, porém essencialmente político), uma espécie de manifesto do corpo livre. No Carnaval que eu amo e acredito não há mais espaço para olhares tortos, nem inveja ou crítica. Assédio é cafona (quando não é crime), e julgamento é gafe. Já não apontamos mais para outras mulheres focando os seus defeitos ou nos comparando. Olhamos uns para os outros (todxs) numa busca empática e de respeito.

Tá certo que a gente não é feito só de brilho, mas, numa festa com tanto motivo para sorrir, não nos resta muito além de amar também (e mais do que nunca) a nós mesmos. E me parece que as mulheres têm um papel fundamental nessa transformação coletiva. Estamos, com nossas honrosas bundas e peitos, deslocando toda a simbologia sexista e limitada atrelada às nossas imagens e propondo uma reflexão muito mais madura e sincera sobre quem somos e o que queremos do mundo.

O Carnaval, então, é pra mim um convite. Vamos nos liberar e liberar o olhar de quem vê o nu com preconceito e agressividade. Vamos abrir esse caminho com ternura. Acho que é por isso que nos enfeitamos tanto. Pintamos o corpo ou usamos biquínis bordados com todo o paetê possível, maiôs metalizados e os nipple tassels mais lindos e criativos (aliás, foram esses “tapa-tetas” burlescos a maior febre do Carnaval de rua). Não importa com que roupa ou com que corpo. Apenas vamos!