Para pensar junto

Gift economy, dê o seu melhor para o mundo

flor vermellha

Valentine Giraud está de volta ao Cena Crua com uma coluna daquelas que se compartilha com pai, mãe, irmão, melhores amigos e todos. Afinal, começa em casa uma revolução sutil e imprescindível para que se inaugure um mundo mais próximo e próspero. A matéria-prima agora pode e deve vir do coração, nossos talentos serão a base desta nova economia.

Por Valentine Giraud

Você já pensou qual é o seu presente para o mundo? Na cultura da dádiva (ou gift culture, como é conhecida nos EUA) cada um de nós tem um presente, um dom, único pra dar ao mundo e nossa missão é compartilhá-lo.

O escritor e palestrante Charles Eisenstein é umas das figuras mais relevantes falando sobre esse tema atualmente. Mês passado, Charles esteve no Brasil pela primeira vez para lançar a tradução de seu livro: O Mundo Mais Bonito Que Nossos Corações Sabe Ser Possível. Eu tive a oportunidade de passar alguns dias com ele para aprender mais sobre o tema e fiquei tão inspirada pelos seus princípios e ideias, que quis compartilhar um pouquinho aqui.

A cultura do gift é baseada na noção de que temos todos um presente único para dar ao mundo e que compartilhar essa dádiva é aquilo que deveria mover nossas vidas e nossas relações. A ideia de que o universo funciona com o princípio da dádiva é, no entanto, antiga e muitas culturas indígenas a vem praticando há muito tempo. Se a gente for pensar, as coisas mais importantes para a nossa vida não nos custam nada. O ar que respiramos não é algo pelo qual pagamos. O calor do sol também não. O vento, o mar ou as águas dos rios e das cachoeiras, a natureza.

Nesta cultura, a ideia é que estejamos cada vez mais conectados com o essencial, com todas as dádivas da nossa vida e do nosso planeta e que os indivíduos possam doar e expressar seus dons uns aos outros, criando assim uma nova economia, na qual as relações, no lugar de dívidas ou impessoalidade, sejam a força da economia.

Nesse sentido, Charles fala muito da gratidão, como uma forma de lastro que surge nas trocas da gift economy. Já que elas, diferente das transações financeiras, ajudam a criar laços entre as pessoas. Quando eu compro alguma coisa de você, eu te dou o dinheiro e depois disso não existe mais relação entre nós. Você não me deve nada e eu não te devo nada. Mas quando eu recebo um presente (um presente, neste modo de pensar, seria algo de valor imaterial, algo que nasce de um talento ou de um recurso abundante natural) é diferente, porque agora eu sinto que te devo um presente, retornar com outro bem, que represente ou que tenha um mesmo valor sagrado. Sagrado, virtuoso e respeitoso. Assim, podemos encarar as trocas não como uma obrigação, mas com sentimento de gratidão.

Afinal, o que é gratidão, essa palavra que anda tão na moda como # nas mídias sociais? Gratidão é o reconhecimento de que você recebeu algo, e o desejo de dar de volta. E é por isso que queremos dar, porque tudo o que recebemos é um presente, uma dádiva. Nossa vida é uma dádiva. Tudo de mais precioso que temos são dádivas: o amor das nossas famílias, o ar que respiramos, o sol, tudo!

Charles argumenta que nosso estado natural é o desejo de dar, o desejo de ser generoso. Mas, muitas vezes acabamos não sendo tão generosos quanto gostaríamos porque tem sempre uma vozinha que diz “será que eu posso pagar por isso?”. Já que a natureza do dinheiro, tal qual ela é hoje, nos constrange e nos inibe a dar (e até de ser) livremente. Isso reflete até em nossas escolhas com relação ao que fazemos da vida profissionalmente. Imagino que muita gente teria outra profissão se a escolha fosse feita com o coração, mais do que com a preocupação financeira do quanto aquele ofício pode ou não trazer de dinheiro. E com isso, lamenta Charles, o mundo deixa de ganhar pessoas fazendo aquilo que realmente amam e dando à sociedade aquilo para o qual vieram ao mundo.

O que o Charles nos lembra é que o dinheiro é só um acordo que fizemos entre nós. Ele só tem valor porque nós lhe damos esse valor. O dinheiro é uma história que nós criamos. E essa história foca na escassez e na falta, onde uns têm mais do que outros, mas não compartilham. Ao contrário, buscam acumular mais e mais por medo. O sistema monetário está todo estruturado ao redor da dívida e da falta. Sendo assim, o medo e o acúmulo não estimulam uma economia saudável, de fluxo e mais resistente às crises.

Na economia da dádiva, existe oportunidade e recursos para todo mundo. E mais importante ainda, não existe a necessidade de se controlar o resultado do dar (e receber). Existe uma confiança intrínseca de que aquilo que se dá vai voltar e que sempre haverá o suficiente. Com a prática do gift, círculos são gerados. Ou seja, as pessoas se unem novamente em comunidade, onde uma pessoa precisa da outra e entende que não estamos separados e alienados uns dos outros. Pois, se eu tenho demais, eu vou dar para quem não tem, sabendo que um dia, aquilo vai voltar para mim (muito provável que em outra forma). Meu valor na comunidade não é mais pelo quanto eu tenho de dinheiro, mas pelo o quanto eu contribuo ou compartilho, pois quanto mais dou, mais todos recebem, e mais fluxo e abundância existem.

Charles acredita que estamos vivendo um período de transição de histórias, no qual estamos deixando para trás uma velha forma de viver e de se relacionar. Para ele, a natureza do dinheiro precisa mudar e só um grande colapso será capaz de fazer isso. Penso que, talvez neste momento, a crise represente uma oportunidade, ou um ponto de partida para essa nova fase de evolução nos conceitos sociais e econômicos. Ainda, segundo Charles, a falência do sistema, tal como conhecemos, vai dar espaço a uma economia baseada no gift e nessa rede de conexão que surge desta filosofia.

Como Charles Eisenstein, eu acredito sim que no meio de tanta confusão e desilusão existe uma fresta se abrindo por onde mais luz irradia, à medida que pessoas se unem para fazer coisas bacanas e transformadoras. Quando ousamos desafiar o status quo, começamos a criar a vida mais justa e bonita que nossos corações sabem ser possível.

Foto: Victor Affaro

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