Bem-estar

ESPIRITUALIDADE E CORPO EM MOVIMENTO

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Começo o texto com um provocação, embora minha ideia não seja incomodar quem passa por aqui. Vamos lá! Há quanto tempo você não dança? Você dança de olhos fechados? Sem ninguém por perto? Em casa? Dança com quem você mora?

Na minha antiga casa, o tapete da sala era a nossa pista de dança. Hoje danço mais na cozinha (é um jeito divertido de distrair minha filha enquanto preparo algo para gente comer). A dança aqui rola naturalmente pela força do hábito e do próprio ato.

Dançar libera tensão e mexe por dentro tirando do lugar emoções escondidas que grudam na gente viciando ações e pensamentos. Arejar o corpo e a mente com o movimento é simples e gostoso, mas pode ser ainda mais. É uma maneira de nos ligar ao nosso espírito e ao que nos une ao todo. Leia as palavras espírito e todo da forma que fizer mais sentido para você, mas gosto muito de lembrar de um conceito que aprendi com a Lívia de Bueno numa entrevista para o CENA CRUA (publicada aqui): a espiritualidade é (entre outras infinitas interpretações) a forma como nos relacionamos com a nossa consciência.

foto: Mariana Caldas; Lila veste Ronaldo Fraga

No Oriente e Ocidente, existem tradições e danças sagradas que evocam energias purificadoras e outras poderosas de transformação e de cura. Elas são manifestações de fé em rituais religiosos ou místicos de conexão com entidades e arquétipos. São um portal de acesso para consciências coletivas, autoconhecimento e que até podem provocar estado meditativo. Algumas trabalham sob o signo da adoração e, no exercício da pura liberdade de dançar, essa devoção pode ser direcionada ao o que bem quisermos, inclusive à vida. A dança me conecta com algo sutil e universal, ela ressignifica a minha presença no mundo, fora a sensação de bem-estar… é tipo mergulhar no mar para tirar a “zica”. Você sente isso?

Lendo sobre o assunto, encontrei uma passagem do livro A dança sagrada, da pesquisadora e coreógrafa alemã Maria- Gabriele Woisen, que me encantou e que é citado no capítulo de introdução de outro livro interessante: A dança, do bailarino, coreógrafo e professor brasileiro Klaus Vianna: “da mesma forma que a criação esconde o Criador, o invólucro físico do homem esconde a sua espiritualidade. Dançando o homem transcende a fragmentação, esse espelho partido cujos pedaços representam as partes dispersas do todo. Enquanto dança, ele percebe novamente que é uno com seu próprio Eu e com o mundo exterior. Quando atinge tal nível de experiência profunda, o homem descobre o sentido da totalidade da vida”.

Maria- Gabriele desenvolve coreografias coletivas em círculos e bebe na fonte de diferentes e antigas tradições religiosas, místicas e folclóricas. Ela é uma referência no tema que anda em pleno resgate e aprofundamento, especialmente entre as mulheres. Além das danças circulares – que, segundo a autora, têm como essência o poder de nos conectar além dos limites da nacionalidade, da religião, do gênero, da idade e tantos outros – há novas metodologias sendo desbravadas como a Danza Medicina, criada pela brasileira Morena Cardoso que já tem uma legião internacional de fãs. Todas testemunhas dos processos transformadores e de empoderamento feminino que se realizam através do corpo entregue a uma dança individual e única proposta pela pesquisadora. A ideia é criar espaço interno para uma reconexão com a ancestralidade e também potenciar liberdade e energia, motores para um vida plena e consciente.

Com certeza está nos meus planos um encontro com a Morena. Por enquanto, aumento o som em casa e me mantenho em movimento como posso. E você? Há quanto tempo não dança?

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