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DOIS LIVROS E UM DISCURSO:
O HUMANO É POESIA:

por

POR MERCEDES TRISTÃO

No último sábado, fizemos juntas, Erika Kobayashi e eu, a segunda Cerimônia do Chá, na Macondo. E ela me perguntou qual seria a intenção que colocaríamos no encontro, que marcava também a abertura do meu novo canto de trabalho. E me disse que estava pensando muito na palavra Utopia. Eu, que havia descrito a Macondo pra ela como um lugar para celebrar o encontro, a beleza, a música, a inspiração, a poesia, em meio às plantas, achei que Erika, uma vez mais, havia captado o sentido todo. À noite, já em casa, falava com minha amiga Ana Hoffman, professora de História da Arte, que me manda no final de tudo, o discurso que Gabriel García Marquéz fez ao receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982 – A solidão da América Latina. 

Para essa segunda coluna aqui no CENA CRUA (leia a primeira aqui), escolhi falar de dois livros que têm me tocado muito. Quase me sinto salva por eles. E separei também o trecho final do discurso de Gabo.* 

(Só uma coisa a mais: tenho mania de anotar em caderninhos, trechos, frases, palavras que me tocam entre uma página e outra. Comecei a reescrevê-las e fui pregando na parede do escritório. Um jeito de trazer a poesia pra mais perto, pequenos lembretes de que a vida é. Recomendo, o exercício é sempre inspirador.) 

Tudo está conectado. 

* Pra ler entre as suas plantas, mudas, flores e hortas. Imaginárias ou não. Com ou sem música

O livro do chá – Kakuzo Okakura, Editora Estação Liberdade

Saí muito muito mexida quando participei pela primeira vez da Cerimônia do Chá. Passei dias tentando entender o que havia acontecido comigo a partir daquele ritual, tentando nomear os sentimentos e sensações (re)ativados desde então. 

Dei de cara com ‘O livro do chá’ numa tarde na Livraria da Vila e levei comigo. Escrito em 1906, por Kakuzo Okakura, que nos leva para uma viagem histórica entre o Oriente e o Ocidente, entre a tradição e a modernidade, entre o taoísmo e o zen, entre a simplicidade e o requinte dos gestos para explicar o cerimonial e a busca pela beleza, perfeição e toda sabedoria encontrados nesse ritual. 

Escrevi vários trechos no meu caderno e tenho lido para os amigos que me dão ouvidos. Esse livro me emocionou muito. E tirei vários, pequenos aprendizados para a vida. Poesia.

Aqui um dos trechos do prefácio, assinado por Hounsai Genshitsu Sen, descendente de importante linhagem de mestres de chá:

“… O livro do chá continua sendo um ensaio de grande valor não só por nos falar do grau de compreensão que a América tinha do Japão na virada do século XX, como também por ser um lembrete, aliás de imensa importância hoje, de que a beleza das flores não é de maneira nenhuma menos, e sim muito mais necessária à existência humana do que a conveniência ou o conforto material modernos. Nesse sentido, é verdadeiramente um clássico, enraizado com firmeza em seu próprio meio, porém transcende a seu tempo e cenário…”  

O homem que plantava árvores – Jean Giono, Editora 34

Confesso que o escolhi pela capa. Era minha primeira vez na nova Livraria da Travessa, da Rua dos Pinheiros, estava com ele nas mãos quando ouvi alguém de dentro do balcão dizendo que era muito especial e que sempre dava de presente para os amigos. Comeci a ler no metrô. no caminho de volta para casa e terminei de ler embaixo no quintal, em meio às plantas. 

‘O homem que plantava árvores’ pra mim é uma ode à vida. Uma ‘fábula real’ que nos inspira a ir em busca dos sonhos e nos mostra que nada é impossível quando se tem boa vontade. Pode parecer clichê, mas… que cada um é capaz de transformar realidades,  quando deixamos nosso ego de lado. Senti solidão, senti o vento batendo no rosto, enxerguei a beleza das montanhas, vi áreas tristes. Depois me alegrei com as sementes, com o barulho da água que renascia, com os ‘salgueiros, os prados, os jardins, as flores e uma certa razão de viver’. Poesia.

As ilustrações, de Daniel Bueno, são de uma beleza! Outro motivo para levá-lo para casa!

Começa assim:

“Para que o caráter de um ser humano desvende qualidades realmente excepcionais, é preciso ter a boa sorte de poder observá-lo em ação durante longos anos. Se essa ação é despida de todo o egoísmo, se o espírito que a orienta é de uma generosidade sem igual, se é absolutamente certo que ela não buscou recompensa nenhuma e que, além do mais, deixou marcas visíveis neste mundo, então estamos, sem sombra de dúvida, diante de um caráter inesquecível.”

Trecho do discurso de Gabriel García Márquez

“… Num dia como o de hoje, meu mestre William Faulkner disse neste mesmo lugar: “Eu me nego a admitir o fim do homem”. Não me sentiria digno de ocupar este lugar que foi dele se não tivesse a consciência plena de que pela primeira vez desde as origens da humanidade, o desastre colossal que ele se negava a admitir há 32 anos é, hoje, nada mais que uma simples possibilidade científica. Diante desta realidade assombrosa, que através de todo o tempo humano deve ter parecido uma utopia, nós, os inventores de fábulas que acreditamos em tudo, nós sentimos no direito de acreditar que ainda não é demasiado tarde para nos lançarmos na criação da utopia contrária. Uma nova arrasadora utopia da vida, onde ninguém possa decidir pelos outros até mesmo a forma de morrer, onde de verdade seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham, enfim e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.

Agradeço à Academia de Letras da Suécia por haver me distinguido com um prêmio que me coloca junto a muitos dos que orientaram e enriqueceram meus anos de leitor e de celebrante cotidiano deste delírio sem remédio e que é o ofício de escrever. Seus nomes e suas obras se apresentam hoje para mim como sombras tutelares, mas também com o compromisso, frequentemente sufocante, que se adquire com esta honra. Uma dura honra que neles sempre me pareceu de simples justiça, mas que em mim entendo como mais uma dessas lições com as quais o destino costuma nos surpreender, o que fazem mais evidente nossa condição de joguetes de um fato indecifrável, cuja única e desoladora recompensa costuma ser, na maioria das vezes, a incompreensão e o esquecimento.

Por isso é natural que eu me interrogasse, lá naquele bastidor secreto onde costumamos enfrentar-nos às verdades mais essenciais que conformam nossa identidade, a qual terá sido o sustento constante da minha obra, o que pode ter chamado atenção de forma tão comprometedora, desse tribunal de árbitros tão severos. Confesso sem falsas modéstias que não foi fácil encontrar a razão, mas quero crer que tenha sido a que eu gostaria. Quero crer, amigos, que esta é, uma vez mais, uma homenagem que é rendida à poesia. À poesia, por cuja virtude o inventário assustador das náuseas que o velho Homero enumerou em sua Ilíada está visitado por um vento que as empurra a navegar com sua tristeza intemporal e alucinada. 

À poesia, que retém, no delgado andaime dos tercetos de Dante, toda a fábrica densa e colossal da Idade Média. À poesia, que tão milagrosa totalidade resgata a nossa América nas Alturas de Macchu Picchu, de Pablo Neruda, o grande, o maior, e onde destilam sua tristeza milenar nossos melhores sonhos sem saída. À poesia, enfim, a essa energia secreta da vida cotidiana, que cozinha seus grãos e contagia o amor e repete as imagens nos espelhos.

Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos esquivos da poesia, e trato de deixar em cada palavra o testemunho de minha devoção pelas suas virtudes de adivinhação e pela sua permanente vitória contra os surdos poderes da morte. Entendo que o prêmio que acabo de receber, com toda humildade, é a consoladora revelação de que meu intento não foi em vão. É por isso que convido todos a brindar por aquilo que um grande poeta das nossas Américas, Luis Cardoza y Aragón, definiu como a única prova concreta da existência do homem: a poesia. Muito obrigado.” **

Leia o discurso completo

** Fonte: Homo Literatus. Tradução Eric Napomuceno

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