Bem-estar

CUIDAR-SE E CUIDAR
DO MUNDO

por

Foto: Milan Popovic no Unsplash e no @itsmiki5

Em momentos em que parece que o mundo, literalmente, vai acabar, o conselho é sempre o de parar e respirar fundo. Esse gesto diz muito: dar um tempo, se recompor, sentir-se melhor para seguir adiante. Devo confessar que, embora goste da prática, me incomoda muito o conceito contemporâneo do self-care, ou, em bom português, o autocuidado. Minha alma de jornalista não resiste, e mesmo para escrever um texto totalmente pessoal e opinativo, sempre dou uma pesquisada pra saber o que já falaram do assunto. Então descobri, nesta reportagem da The New Yorker, o uso do autocuidado como uma postura de resistência, relacionada às minorias oprimidas, como as mulheres negras e os gays, entre outros. Achei interessantíssimo e válido, mas não é ao autocuidado neste sentido ou nestes casos a que me refiro (se der, leia também a Laurie Penny sobre o tema). Penso mais nesta máxima difundida para todos de que é preciso primeiro cuidar de si para depois cuidar do outro que acabou, em muitos casos, se transformando na máxima de que o mais importante é, antes e acima de tudo, cuidar de si mesmo. Mas cuidar de si mesmo para quê? Se for para ficar bem e seguir a própria vida sem pensar em nada além do próprio umbigo, será que faz sentido? Não terá virado o autocuidado mais um sintoma de uma sociedade individualista, que não acredita que para se estar bem de verdade é preciso que os outros também o estejam? 

Se o autocuidado virar eufemismo para narcisismo, estou fora. Mas é verdade, como inclusive sábias filosofias orientais pregam, que não dá para cuidar do outro e ajudar o mundo em completa histeria, depressão e/ou outro desequilíbrio agudos da alma e do corpo. Assim, é válida a proposta de, primeiro, se recompor, se encontrar (ou reencontrar), equilibrar-se para, com a cabeça e o corpo no lugar, ter forças, bom senso, coerência e iniciativa para fazer sua contribuição para que o mundo fique melhor.

A Lila, minha amiga, criadora deste Cena Crua que agora dividimos, é um bom exemplo de quem busca o autocuidado no dia a dia para bem estar individual, para administrar a vida, claro, mas também para recarregar as energias para conseguir agir em causa que não seja apenas própria. Na última quinta, na nossa reunião semanal, ela me contava as consequências emocionais e físicas das notícias mais recentes do Brasil. Estava triste, e essa tristeza era paralisante. Recorreu a uma das terapias do Temple, espaço recém-inaugurado da Denise Dahdah que eu já havia conhecido, e que gostamos muito (Lila vai contar com mais detalhes num outro post). Horas depois, já estava outra. Não só pela massagem e técnicas aplicadas em si, mas pelo acolhimento de uma outra pessoa, para conseguir, como bem aconselha o dito popular do início do texto, parar e respirar. 

Quando a coisa aperta, paradoxalmente, a gente geralmente precisa do outro. Digo paradoxalmente se pensarmos nesta vertente egoísta do autocuidado, do olhar para si, pensar em si, fazer tudo para si. Só que até nestes momentos quando o que mais importa é você, é por meio da ajuda do outro, muitas vezes, que você relaxa. Mesmo que este outro não esteja presente.

Tenho gostado muito das meditações guiadas pelo monge Satyanatha (ele tem um aplicativo chamado Vivo). Já testei outras meditações mas, por ora, a companhia da voz dele, dos ensinamentos passados de maneira tão generosa, doce e sem julgamento, são um estímulo crucial para seguir adiante e me engajar. Na conta do Instagram deste mestre que, aos 23 anos, abandonou a carreira de engenheiro de computação para descobrir a própria essência exilado em Kauai Aadheenam, monastério budista cravado no Havaí, há vídeos também inspiradores sobre o significado de sentimentos que nos atormentam, como medo e raiva. Tudo para, na minha opinião, se elevar e se equilibrar em busca de uma maneira de agir também por um bem maior: o coletivo. Do qual, afinal, todos nós fazemos parte. 

Você pode também gostar de

Sem comentários

Deixe uma resposta