Lifestyle

CONSUMO CONSCIENTE EM EXPANSÃO:
O NOVO LUXO E SEUS ENDEREÇOS EM SP

por

A maior empresa produtora de laticínios dos Estados Unidos, Dean Foods, depois de 94 anos comercializando os mais variados tipos de leite de vaca abre processo de proteção à falência*. No Brasil, cerca de 22% da população reduz o consumo de carne (16% pensando no bem-estar do animal), segundo o levantamento “Who Cares, Who Does”, feito pela Kantar. É hora de assumir: o consumo consciente não é retórica de uma bolha habitada apenas pelos politicamente corretos. Pode parecer cruel essa quebra brusca de realidade, porque o impacto na economia e na vida de muita gente é grande. Mas, talvez, esses dados sejam a prova de que o mundo está se articulando através de um instinto coletivo de preservação, acionado pela urgência das coisas como elas estão. Para não colapsar; é preciso mudar.

Olhar para o que compramos e como compramos, ver além do produto, questionar a embalagem, os modos de produção, o impacto social e ambiental por trás de cada rótulo, roupa, alimento ou objeto são práticas cada vez mais comuns. No último final de semana, eu visitei a feira de moda sustentável Brasil Eco Fashion e pelos corretores do Unibes Cultural, onde o evento aconteceu pelo terceiro ano consecutivo, ouvia as conversas sobre a origem dos produtos expostos ali. Não eram só jornalistas ou estudantes e pesquisadores. Eram consumidores com suas sacolinhas, decidindo suas compras de forma responsável e consciente. As novidades eram muitas: desde cerdas de fibra de coco em pincéis para maquiagem até peças de moda upcycling e projetos que alimentam cadeias de produtores e artesãos pelo Brasil. Estava bonito.

No próximo final de semana (dias 23, 24 e 25 de novembro), também em São Paulo, vai acontecer a Slow Market Beauty, uma feira com foco no mercado de beleza e cosméticos naturais com palestras, talks e expositores. Ela vai ocupar o Vila da Terra, novo rooftop do mercado Natural da Terra na Vila Madalena (veja a programação completa aqui). Na cidade, de tempos em tempos, as feiras pipocam trazendo para um púbico cada vez maior produtos éticos que fazem a economia circular ganhar sentindo de fato. Dão espaço para novas e pequenas marcas, incentivando o contato direto com o consumidor. E é aí que acontece o envolvimento, a troca e a mudança de comportamento.

O shopping continua ali, mas a rua está fervendo de novidades e projetos lindos que vemos em eventos como o Mercado Manual (com próxima data marcada para 7 e 8 de dezembro), a Feira Las Plantas (no dia 8 de dezembro), a Junta Local, o movimento carioca que aportou aqui este ano (com próxima edição no dia 30 de novembro), a Feira Jardim Secreto (ainda sem nova data), ou o seu endereço fixo em Santa Cecília Galpão Jardim Secreto.

Outro bom exemplo do movimento consciente no mercado de design de decoração e moda é a Feira Rosenbaum, que também acontece no Unibes Cultural. Durante a semana de 7 a 15 de dezembro, a próxima edição da feira vai valorizar os diferentes biomas brasileiros e, como sempre, expor a alma multicultural do país em produtos autênticos feitos de forma artesanal e com a bela curadoria da sua fundadora, Cristiane Rosenbaum.

Espaços fixos como lojas colaborativas ou multimarcas engrossam esse caldo de possibilidades para o consumidor atento. O Epicentro Cultural, no Jardins, entre outros eventos gastronômicos, promove o charmoso Mercado de Cosmetologia Natural, onde eu conheci marcas que adoro, como a Natural do Babosa e a Juni Lab. Nos arredores, em plena Oscar Freire, a Bemglô (que também tem um e-commerce) traz um contraponto interessante a tudo o que vemos no comércio local. Roupas, acessórios, cosméticos e objetos de decoração feitos por artesãos e pequenas marcas exclusivamente brasileiras. A loja das amigas e sócias Betty Prado e Glória Pires (sobre a qual já falamos no post Batons veganos e uma nova forma de consumir) respira uma atmosfera de respeito e celebração pelo que brota da natureza e de artistas de diferentes regiões do país. Lá, o luxo tem propósito e responsabilidade. Aliás, o novo luxo, pra mim, é exatamente saber de onde vem e como é feito o que eu uso, conhecer as histórias por trás dos produtos e apostar em formas mais humanas e justas de produzir. O valor da compra está justificado, embutido em cada fase do processo e sendo distribuído para cada mão envolvida até chegar em mim.

Em Pinheiros, a Casa Reviva mostra como é possível consumir com o máximo de consciência. A iniciativa dos amigos Bruno Silvestre e Bia Marcelino (leia a história deles aqui) tem como maior propósito ressignificar o ato da compra, solucionando ao mesmo tempo problemas que o nosso estilo de vida acabou causando no mundo. A Casa, que completa um ano em dezembro, está atrelada a um projeto bem maior que é a ONG Reviva, responsável por levar água potável, educação e capacitação profissional para lugares esquecidos na África e no Brasil. A curadoria da dupla é cuidadosa e só abre o espaço para produtores e marcas nacionais que trabalham dentro de critérios do mercado ético e sustentável, comprometidas com impacto social e ambiental. E são esses produtores, de forma colaborativa, que arcam com os custos mensais da loja e mantém esse modelo funcionando e gerando oportunidades de faturamento para alimentar todos esses projetos.

Casa Reviva em Pinheiros

Cosméticos, beachwear, joias, acessórios e itens de decoração, bem-estar e aromaterapia se espalham pela loja de Pinheiros. O espaço ainda conta com uma área externa, um café e uma seção só com alimentos orgânicos e naturais como cafés, chocolates, manteigas veganas e outras especiarias. A casa também abriga oficinas criativas, workshops de meditação (já escrevi sobre uma meditação tibetana que pratiquei por lá, leia aqui) e aulas fixas de yoga às quartas e sextas à noite.

Entre as marcas expostas na Casa Reviva, a Voz direciona 100% do lucro para a ONG. Suas roupas são feitas de capulana, um tecido estampado comprado na África (em alta na moda agora), e confeccionadas por costureiras de São Bernardo do Campo que recebem vinte reais por peça (valor superior ao praticado no mercado em geral). A coleção Refúgio traz estampas criadas manualmente por mulheres de Maratane, um campo de refugiados em Moçambique beneficiado pelas ações da ONG Reviva.

Campanha da Voz

O formato gira tão redondo que a Casa Reviva há pouco mais de dois meses abriu sua primeira loja dentro de um shopping, no Villa Lobos. Por conta do aconchego visual proposto pela loja/casa, ela atrai clientes que acabam encontrando um universo muito além do esperado. “A gente só vai mudar e despertar a vontade de consumir consciente estando dentro dos grande polos de consumo. Consumir nunca teve tanto significado e queremos que as pessoas que vão ao shopping vejam mais do que o produto que elas precisam. Além do produto, existe uma causa por trás. Essa é uma outra experiência de compra, com outro prazer, especialmente quando elas passam a conhecer as histórias de pessoas que tiveram as vidas transformadas”, me disse Bruno por telefone. Ele ainda contou, em primeira mão, que até o fim do ano abre uma terceira Casa Reviva, desta vez, no Shopping Jardim Sul, no Morumbi. E dia 8 de dezembro (dia cheio na agenda da cidade, aliás) tem comemoração do primeiro aniversário do espaço em Pinheiros. A celebração simboliza também novos tempos, de mais prosperidade e abundância para o planeta através do consumo responsável.

Vitrine da Casa Reviva no Shopping Villa Lobos

*Leia mais sobre o assunto nas matérias da ONG Animal Equality Brasil (clique aqui) e na CNN (clique aqui).

Você pode também gostar de

Sem comentários

Deixe uma resposta