Arte/ Moda/ Para o corpo e a alma/ Para pensar junto

Moda, Amor e Crueldade

Se é na Arte o lugar de mudar o mundo e de ser político com poesia. Se este é o ofício de um artista comprometido em dividir seu olhar privilegiado sobre a vida. Se ele tem e sabe usar com responsabilidade o espaço público para discursar sobre o que precisa ser dito. Se o artista provoca, incomoda ou afronta. Na Moda temos um deles, iluminado e corajoso, o estilista mineiro Ronaldo Fraga.

Eu sempre me perguntei porque a Moda não é considerada uma Arte. Eram apenas seis delas, no início. O Cinema entra como a sétima, depois vem a Fotografia, tem até Arte Digital nessa lista, mas e a Moda? Está certo que nem todo pedaço de pano é arte, nem todo estilista é artista e que a moda tem sido vazia e fútil, geralmente. Culpa nossa, da indústria, da mídia e da preguiça. Mas um desfile como vimos essa semana no SFW traz força, holofotes e confetes em cima de algo que merece ser cultuado: o artista, seja no palco ou na passarela. O artista que se arrisca e faz uma imensa confusão na cabeça das pessoas.

Ronaldo é um deles e por acaso escolheu a Moda como uma de suas expressividades. Ele também desenha e pinta, não apenas roupas e não apenas com tintas, mas com atitudes e escolhas relevantes. Em plena Semana de Moda, no Brasil, país que enfrenta grandes dificuldades com o tema tolerância, ele sambou na cara da sociedade. O momento político é perfeito – quando a homofobia aqui é praticada por políticos ou até mesmo por uma pessoa querida da família – para elencar apenas modelos trans para um desfile de Moda.

El día que me quieras

“O mundo não precisa de mais um desfile”, foi o que o estilista disse em entrevista ao site da revista Elle e aqui a gente complementa: o mundo precisa de algo muito mais fundamental que é a reflexão sobre o respeito e o amor. Afinal, sem isso não se pode ser gente.

Com Música, Dança, Pintura, Escultura, Arquitetura, Poesia, Cinema, o que vimos no desfile El día que me quieras foi Arte, todas elas (daquela listinha) juntas e focadas em uma questão muito séria. Para contextualizar ainda mais o que aconteceu no icônico Theatro São Pedro, em São Paulo, compartilho a carta/manifesto escrita e lida pelo estilista momentos antes da cortina abrir e da trilha sonora arrebatar a plateia com Bandolins de Oswaldo Montenegro e aquelas criaturas tão maravilhosas, com aquelas roupas tão eloquentes.

Na íntegra, segue a carta/manifesto de Ronaldo Fraga:

O cenário deste desfile é o Theatro São Pedro, lugar re-existente, construído em 1917 que, dentre tantos marcos da dramaturgia brasileira, foi palco da estreia de Macunaíma, de Mario de Andrade, com adaptação de Antunes Filho, em 1973.

O título da coleção é El día que me quieras. Ao contrário do que muita gente pode pensar, não vem da célebre música de Gardel. Peguei o nome emprestado da loja que o estilista Ney Galvão abriu em Itabuna, no início dos anos 70.

Um belo dia, Ney e sua irmã resolveram criar as roupas que eles queriam usar e não encontravam para comprar. A solução foi abrir uma loja, que rapidamente fez sucesso e virou ponto obrigatório para os travestis do sul da Bahia. Essa clientela chegava a sair de cidades a um raio de mil quilômetros de distância para comprar botas, vestidos e perucas da El Día Que Me Quieras.

Nessa mesma época, Ney Galvão, filho de magistrados, vivia numa casa cuja mesa sentavam juízes, advogados, pessoas da alta sociedade, travestis, gays e lésbicas. Essa história me faz imaginar uma época mais tolerante, mais empática, diferente do que estamos vivendo hoje. O curioso foi que Ney só veio a conhecer o preconceito quando saiu de sua cidade interiorana para se mudar para a capital Salvador.

O preconceito que existia e que ainda existe, mata. No Brasil, a população trans é diariamente dizimada. Segundo a ONG Trans Gender Europe, somos o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo.

Se o feminino representa aquilo que é desvalorizado socialmente, ainda mais desvalorizado é o homem que se identifica com o feminino, desafiando a crença da maioria, segundo a qual a identidade de gênero é uma expressão de cromossomos e hormônios. A violência insurge contra quem não se encaixa nessa representação do senso comum.

Durante toda a vida, uma pessoa trans luta para ser reconhecida por um gênero diferente daquele de nascimento. Em nossas cidades, a essas pessoas são negados os registros de nome e até o banheiro público com o qual se identificam. O mesmo acontece na escola, no trabalho e em todas as frentes sociais.

E o que isso te a ver com um desfile na São Paulo Fashion Week? A moda tem o poder não só de ver com poesia em terreno árido, como também de lançar luz sobre a face da roupa e, nela, encontrar uma forma de libertação. Se aqui estamos falando do corpo como prisão do desejo, a roupa funciona como chave. Não raro, transgêneros se recordam como um momento libertador aquele em que, finalmente, usaram o primeiro vestido.

Essa é uma coleção exclusivamente composta pelo mesmo vestido. De épocas glamorosas, das décadas de 20, 30 e 40. Poderiam ser roupas de bonecas de papel, como aquelas que encantavam crianças de antigamente. Mas a história deste desfile não está na roupa. Está em quem as veste.

Vocês verão uma coleção exclusivamente composta pelo mesmo vestido. De épocas glamorosas, das décadas de 20, 30 e 40. Poderiam ser roupas, de bonecas de papel, como aquelas que encantavam crianças antigamente. Mas a história deste desfile não está na roupa. Está em quem as veste.

Neste universo complexo de gênero, identificação, corpo e desejo, a roupa é um escape. Para todos, aliás, e sempre, a roupa deveria ser um vetor de apropriação do ser. Ela é capaz de libertar, como mostra a memória do simples uso da primeira saia, do primeiro salto, do primeiro batom e de outros códigos que se alinhavam direta e inexplicavelmente com o ser. Esse ser que muita gente chama de alma.

Ficha técnica do desfile:

Concepção Geral: Ronaldo Fraga; Direção de Desfile: Roberta Marzolla; Diretor de Casting: Alê Queiroz; Pesquisa de Casting: Diego Casmurro; Cenografia: Ilustração – Renan Santos | Impressão – Casa Rima; Trilha: Tom Garcia; Beleza: Marcos Costa; Sapatos: Di Valentini; Acessórios: Aramez | Ayê Ayê; Assessoria de Comunicação: Namídia

Uma conversa rápida com O Teatro da Crueldade, de Antonin Artaud

“No mundo manifesto, e metafisicamente falando, o mal é a lei permanente, e o que é bem é um esforço e já uma crueldade acrescida a outra… no ponto de desgaste a que chegou nossa sensibilidade, certamente precisamos antes de mais nada de um teatro que nos desperte: nervos e coração…. mas o verdadeiro teatro, porque se mexe e porque se serve de instrumento vivo, continua a agitar sombras nas quais a vida nunca deixou de fremir…acima de tudo precisamos viver e acreditar no que nos faz viver e em que alguma coisa nos faz viver – e aquilo que sai do interior misterioso de nós mesmos não deve perpetuamente voltar sobre nós mesmos numa preocupação grosseiramente digestiva”, do livro o Teatro e seu Duplo, de Antonin Artaud.

Para conhecer: Br Trans, de Silverio Pereira

Conheçam também o projeto Br Trans, um encontro entre a vida e a arte, a manchete de jornal e a poesia concreta no teatro, pelo olhar do ator e diretor Silverio Pereira.

Foto: Agência Fotosite

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