Para pensar junto

Adeus, Viradão!

são paulo cidade

Quando eu cheguei por aqui, já havia pra mim Caetano e Sampa me fora apresentada por ele previamente. Vinda do Rio de Janeiro, aos trinta, eu só poderia estar em um lugar como São Paulo com os olhos vidrados em tudo. Atenta aos indícios de que estava em uma cidade sincrônica, ligada ao tempo presente, apontando naturalmente para um futuro do qual o restante do Brasil, de certa forma, ainda não se aproximava. Também parei entre a Ipiranga e a Av. São João, sem saber exatamente onde estava, e senti meu coração diferente. Estranhei porque, afinal, tudo aquilo em volta é estranho.

Quando me toquei, era quase mágico! Que coragem caminhar sozinha por São Paulo! Que orgulho ser mais uma personagem daqui, fazendo parte do coro deste espetáculo, melhor dizendo. É tanta gente e eu não conhecia ninguém! Eu gostava de ouvir a sola da minha bota marcando os meus passos e com o tempo eles foram ficando mais firmes. Cortar a Paulista com o peito estufado de amor e coragem sempre foi motivo para rir sozinha e ter aquele olhar de propaganda com bem-sucedidos, mesmo estando na merda. Eu estive na merda. São Paulo é enorme e quem é você na noite? Fiquei sem trabalho, mas as pessoas sorriram pra mim, me deram abrigo e confiança.

Quando percebi, estava apaixonada por São Paulo e tinha a sensação de ter feito a escolha certa em me mudar, mesmo chorando a cada pouso no Santos Dumont. Acha que é fácil caminhar no Minhocão e não lembrar de Ipanema aos domingos? Acha que o ar daqui faz bem pra pele ou pro pulmão? Mas, acontece, que isso não resume São Paulo e assim eu canso de dizer aos amigos que me perguntam até hoje, seis anos depois, o que é que eu vim fazer aqui.

Quando eu vim, não era a única carioca do bairro ou a única de fora num grupo pequeno de amigos. São Paulo é toda feita do Brasil. Tenho poucos amigos paulistas. Conheço gente de todas as regiões do país que vivem aqui, trabalham e amam esta cidade, como eu. No início é duro, é um teste, é para saber se você está apto ao ritmo e pressão naturais da desvairada Sampa. Passei no teste. Depois, me falaram que aqui não havia amor, não aceitei e insisti! Existe sim! Existe também uma enorme boa vontade entre as pessoas que não se conhecem, entre vizinhos ou no comércio.

Quando todas essas pessoas se esbarram, alguma coisa deve acontecer. Porque é num papo de padaria ou numa venda de água de coco no Ibira que trocamos as nossas certezas limitadas por novas perspectivas. Nesses contatos, que muitas vezes podem não ser confortáveis, descobrimos uma falha ou outra em nosso próprio caráter e formação ou temos a chance de ajudar alguém a ser mais legal neste mundo. De pouco em pouco, passo a passo, hoje eu mais à vontade de chinelos, vamos sendo gente, sendo a cidade e a cidade é maior, mais forte e independente do que se pode imaginar. Ela não cabe em Interlagos, não cabe, Doria!

Quando Interlagos receber minhas botas, chinelos, ou o que for, eu estarei louca, como todos que acreditaram nesta mudança da Virada Cultural. A Virada Cultural é melhor que Carnaval! É um cenário que até o Rio copiou! Tem mais do que samba, fantasias e máscaras. Tem a gente como a gente é. Eu carioca, o vizinho de outro canto. O que mora na rua e o que vive no loft bacana. Todos dançam, cantam, bebem e celebram a vida. Os artistas se emocionam, as bandeiras estão por lá. É livre, democrático e saudável! Doria, não esterilize esta cidade, não higienize a sua maneira de se ser, um grande centro nervoso de cultura popular. Não faça Caetano escrever que Sampa não é nada daquilo! Doria, passe uns dias fora enquanto a cidade vive e ama! Cada um se diverte como quer e pode, não é? Melhor ir pra rua para celebrar do que chorar o que andam fazendo no poder. É só amor por aqui, em SP!

Foto: Victor Affaro

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