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Cenas pelo mundo/ Viagens

UM ELO INTUITIVO

A primeira vez que Amyr Klink viu um domo geodésico ele não esquece. A estrutura de uma semiesfera tinha beleza estética, mas ainda não parecia fazer sentido. De todo modo, ali estava o navegador curioso e interessado diante da escultura feita de triângulos, pentágonos e hexágonos encaixados numa harmonia de rara precisão.

Logo, já estava lendo sobre a matemática das geodésicas elaborada pelo designer e arquiteto americano Richard Buckminster Füller. A forma é quase um enigma, decifrado por Füller e transformado num ícone de eficiência e simplicidade. Nos anos 70 houve uma febre de construções evocando as geodésicas, numa tentativa de questionar o que era convencional ou de resgatar, intuitivamente, um tipo de habitação mais orgânica e aerodinâmica.

 

 

Por trás dos domos geodésicos, mais do que tudo, existem os mesmos conceitos com os quais Amyr já vinha trabalhando na concepção de suas embarcações. Com o mínimo de superfície e o máximo volume, ali ele enxergou uma equação de maior democracia de esforços e de não desperdício de material.

 

 

De repente, o estudo e a aproximação com as geodésicas começam a ganhar suas horas e ainda mais atenção. Surgiu a ideia de aproveitar o alumínio, material que já usava em seus projetos náuticos, para começar algumas experiências despretensiosas, o que acabou virando, segundo Amyr, quase um vício.

“A experiência que temos no mar, de construir o barco e de fazer acontecer, é muito interessante. Dentro das ondas do Índico a gente se sente um protagonista autêntico. Eu fiz aquilo acontecer. Essa sensação se repete com a geodésica. Quando você vê, de repente já está escalando a estrutura. Eu gosto de subir nas coisas que eu faço e andar por elas”, explica Amyr.

Quando as estruturas passam a aguentar o peso do navegador e ainda muito mais, as geodésicas viram uma diversão e também um desafio que instiga a busca pela perfeição da sua montagem complexa, por dimensões maiores e pela aplicabilidade.

Outra característica interessante dos domos é que eles não ferem o solo ou as superfícies nas quais são instalados. Podem ser montados e desmontados sem deixar vestígios e, por isso, muito antes de Füller, há centenas de anos o homem já apostava na estrutura como uma solução inteligente.

Na Patagônia, há indícios de que os índios nômades Alacalufes tinham suas habitações temporárias feitas de geodésicas rudimentares em madeira, ainda por volta do século XV. Dessa inspiração, surgem as instalações do EcoCamp Patagonia, situado no Parque Nacional Torres del Paine. “Numa região de beleza natural espetacular onde queremos causar o mínimo possível de impacto, o uso de uma estrutura dessa faz todo o sentido”, diz Amyr.

 

 

O ecolodge luta pela sustentabilidade do projeto e pela integração do homem com a natureza com o menor impacto possível. Foi lá a base dos dez dias na Patagônia chilena com Amyr, que pôde conhecer mais profundamente como os domos ali ganharam vida útil de forma simples e sofisticada ao mesmo tempo.

“O EcoCamp tem muito desse conceito da simplicidade extrema. Ao invés de você comprar um pendurador de inox para pôr atrás da porta do seu quarto, você põe uma galhada de lenga, só que tem muita sofisticação atrás da galhada. Ela foi lixada, foi tratada. Ela foi preparada para estar ali. Eu fiquei impressionado com muitos detalhes técnicos de transição de materiais conflitantes, por exemplo, as passagens dos dutos das chaminés, de um tecido inflamável ou plástico, os fechamentos das portas, as aberturas de janelas, o isolamento do piso. Eu acho que eles se esmeraram nesses detalhes quase invisíveis que fazem com que uma ideia simples brilhe!”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre todos os esforços do EcoCamp para conservar e proteger o seu entorno, outras providências e políticas são adotadas em diversos processos, desde o tratamento do lixo em composteiras, passando pelo uso controlado de recursos locais e de energia limpa. O hotel é reconhecido e premiado por suas inovações em tecnologia verde e na liderança por uma visão de turismo comprometida com o meio ambiente na região.

Existe nesse projeto uma consciência completa do que é circular na vida do planeta e é esse movimento orgânico que inspira a dinâmica e o propósito do hotel. Durante uma estadia por lá, aos poucos, é possível entrar nesse flow e perceber como é raro e gratificante estar numa região frágil de natureza bruta sendo absolutamente responsável e cauteloso com ela. Por isso, podemos até agradecer à matemática e a brilhante ideia das geodésicas aplicadas.

Fotos: Victor Affaro